E ai as pessoas chegam pra mim e me perguntam por que eu não tenho namorado e eu paro e penso “por que todo mundo me pergunta isso? EU QUERIA TER UM NAMORADO” e sinceramente? Eu realmente queria.
Mas veja um problema... As pessoas hoje em dia se acostumaram a se relacionar com alguém sem gostar de verdade, sem respeitar e sem conversar. Acostumou-se a trair, a deixar pra lá os problemas de comunicação, o respeito pelas decisões das pessoas. Simplesmente deixaram pra lá as coisas mais importantes só pelo o que? Poder dizer “oi, eu tenho alguém e não estou sozinho”? E aí ficar pulando de um relacionamento a outro sem parar? Hã, não, obrigada, eu totalmente PASSO alguém assim.
Vê? Isso é um problema dos grandes pra mim.
Desculpe-me se eu não sei ser falsa, quer dizer, sei, eu sei interpretar qualquer papel que eu queira, modéstia a parte, sou uma ótima atriz, mas eu não QUERO, principalmente se for com você.
Desculpe-me se eu não sei brincar de amar. Quando eu escolher alguém pra dizer a todo mundo “Hei, esse é o MEU NAMORADO” vai ser alguém pra valer. Não no sentido de ficar pra sempre, de casar...
Não.
Nada disso.
Até porque eu nem quero me casar, então...
Será no sentido deu gostar dele de verdade. Pra valer. Só me relacionarei com alguém assim quando eu não tiver que ser racional, quando eu não conseguir ser racional, quando eu tiver certeza que podemos superar bobeiras do cotidiano, quando o sorriso dele for a coisa que salvará o meu dia mesmo que seja um dia dos infernos. Entende?
Eu sei que talvez seja esperar demais, mas eu não ligo. Estou feliz assim, mesmo. De verdade. Sou solteira, mas nunca estou sozinha. O que não me falta é pretendentes.
Caras legais que se importam mesmo comigo, mas nenhum que me tire da minha zona de conforto, que me faça perder o chão, que me faça passar o dia inteiro com um sorriso de retardada na cara só porque ele me ligou, ou porque sorriu pra mim.
Até hoje não encontrei nenhum que me deixasse com um brilho nos olhos. Nenhum que eu chegasse perto de achar que ele é perfeito, nenhum que me fizesse endeusá-lo. Nenhum.
Talvez eu seja realista demais, não sei.
Tudo o que eu sei, é que quando eu assumir um compromisso eu quero que seja pra valer. Quando eu escolher viver um romance, será algo digno de literatura. Algo menos que isso não seria eu.
O normal, ordinário, medíocre... Não me serve, não encaixa.
Enquanto meu Romeu, Mr. Darcy, Edward não aparece, vou vivendo minha vida assim, ta bom do jeito que está.
Por enquanto.
BY: Sabrina, PeRiGoSas
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
quarta-feira, 29 de junho de 2011
PeRiGoSas
Prólogo
Todo mundo mais cedo ou mais tarde terá um segredo. Um segredo do tipo que se descoberto, acaba com a vida das pessoas envolvidas nele. Esse tipo de segredo se compartilhado se torna responsável por fortalecer um relacionamento já fortalecido.
Mas até onde uma pessoa seria capaz de ir pra proteger um segredo? Será que realmente há um limite pra se proteger e proteger tudo aquilo que você ama?
Elas têm a resposta.
Capítulo 01
- Gostosas! – um grupo de rapazes entre seus 20 e poucos anos gritaram para as quatro garotas que passavam pela rua de braços dados cada uma carregando várias sacolas de loja de roupa.
Nenhuma delas virou o rosto para olhá-los. Elas já estavam mais do que acostumadas a esse tipo de coisa. E mesmo com o costume, elas não conseguiam evitar exibir um sorrisinho de gratificação e de certa forma agradecimento por tal elogio.
Há mulheres que considerariam tal palavra com ultraje e ficaria revoltada ‘como ousam?’ e esse tipo de coisa, só que certamente elas não eram esse tipo de mulher.
Elas sabiam reconhecer a um elogio e sabiam muito bem como recebê-lo. Estavam acostumadas as pessoas endeusarem elas, apenas algumas é claro, e outras as invejarem mais que tudo e outras simplesmente desejarem que elas realmente morressem.
Não que elas se importassem. Não se importavam.
Não seria errado dizer que elas até gostavam de certas inimizades porque isso agitava suas vidas. Constantemente elas eram ameaçadas de morte ou esse tipo de coisa por garotas que elas acabavam com a vida sem querer. Ou não.
Com a Perla entre elas era difícil de acreditar que elas poderiam fazer algo sem saber de todas as conseqüências ou algo impensado, impulsivo.
Perla Lavigne era a cabeça do grupo. Ela é a mais inteligente de todas elas, a aluna modelo, a CDF e também a mais equilibrada. Ela sempre calculava tudo com exatidão, bolava os planos que elas faziam, sabia todos os prós e contras e nunca estava despreparada para nada. Eu disse nada. Com ela sempre havia um plano na manga. Se não tivesse, ela acharia.
Embora não costumasse sorrir muito, tinha um sorriso perfeito. Um sorriso que cativaria muita gente se ela talvez usasse com maior freqüência. Só que no mundo dela, eles eram dispensáveis. Principalmente quando estava em casa, com seus pais.
Seus pais ao contrário dela eram dois desequilibrados obcecados por dinheiro e mais dinheiro. Ambos empresários sabe-se deus do quê extremamente bem sucedidos e ricos. Realmente muito ricos. Cada um tinha seu negocio e se já tinham muito dinheiro separados, imagine juntos. Quem ganhava mais era um constante debate entre eles dois o que fazia com que a Perla se afastasse deles cada vez mais.
Malmente ela os via e malmente queria saber deles. Eram seus pais, mas pra dizer a verdade ela não amava nenhum deles dois. Ambos eram fúteis, mesquinhos e egocêntricos e ah, egoístas também. Eles não amavam ela, isso era obvio e ela não ligava. Se fosse procurar amor, tinha suas amigas pra dar.
Tudo o que queria de seus pais e era grata por isso era o seu dinheiro ilimitado. Também era muito grata aos genes de sua mãe que lhe concedeu um corpo proporcional com curvas que ela preservava muito bem com a prática rotineira da academia. Já seu rosto era mais parecido com o de seu pai. Tinha puxado o mesmo tom de pele morena do dele, seus olhos verdes e é claro, seu cabelo liso ondulado. Sim, ela não tinha muito do que reclamar.
Até porque, graças a deus, seus pais só tinham ela de filha. Bom, ao menos sua mãe. Seu pai tinha um outro filho, um filho bastardo, fora do casamento, que ela só descobriu quando ele morreu.
As meninas continuaram a andar com sua confiança habitual olhando pras vitrines das lojas e todos que passavam por elas as olhavam. Todos as desejavam pelos mais diferentes motivos. Elas sorriam com graça e confiança, nelas mesmas e nas amigas que tinham.
É fácil deixar seu corpo cair para trás se você tiver certeza que tem algo ou alguém ali pra te segurar e você não cair.
Era assim com elas. Confiança era a palavra-chave num relacionamento e no delas era ainda mais importante.
Elas não eram quatro garotas comuns. De comuns elas não possuíam absolutamente nada. Talvez somente sua aparência bonitinha e arrumadinha. Só isso e mais nada.
Os problemas que elas tinham nada tinham a ver com adolescentes normais. Elas não tinham problemas em manter a sua aparência, seu corpo, suas roupas, nem problemas com os garotos.
O dinheiro que elas tinham, principalmente o que a Perla tinha, facilitava a vida delas. A Perla tinha tanto dinheiro, mais tanto dinheiro que nem sabia como gastar tudo aquilo sozinha e dividia com a maior felicidade do mundo com suas amigas fazendo um dia terapêutico de compras como esse.
Oh sim, passar o dia inteirinho na rua batendo perna entre lojas e mais lojas era o remédio preferido delas para curar qualquer coisa. E elas realmente estavam precisando.
Na noite anterior, tinham se reunido as quatro, exatamente à meia-noite no meio da floresta perto da casa da Perla para enterrar uma caixinha que tinha feito juntas.
Na caixa constava nada menos que seus piores segredos. Os segredos que poderiam acabar com a vida não só delas, como de muitas outras pessoas. Segredos que mudavam, que podiam mudar, a vida de uma pessoa.
Elas não sentiam-se no direito de acabar com aquelas provas, com aqueles segredos, mas era o trabalho delas protegê-los. Era isso que elas faziam.
Elas deveriam proteger todo e qualquer segredo que caísse em suas mãos até chegar a hora certo de usá-los. E sempre quem determinava isso era a Perla.
Geralmente quem descobria os segredos alheios era a Rina ou a Goy. A Rina por ser a mais popular delas e a Goy por ser altamente perceptiva.
- Será que a loirinha tem telefone? – um rapaz de aparência razoável perguntou olhando diretamente nos olhos da Rina.
Ela olhou para ele e sorriu. Sim, ela gostava do que ela via. Por um instante ela olhou ele de cima abaixo avaliando e sabia que suas amigas estariam fazendo o mesmo e indicariam o que acharam dele logo, logo fizessem a avaliação. Na dela, ele poderia tirar um oito.
Sim, ele era um oito.
Ele era um pouco mais alto que ela, usava um jeans sem marca, tênis Nike, uma camiseta preta regata também sem marca alguma com um casaco preto. Ele sabia se vestir e combinar, mas também dava logo pra sacar que dinheiro ele não tinha. Mas ele era bonitinho. Tinha um rostinho de bebê e seu cabelo era liso e curto, também era possível ver duas argolas penduradas na orelha dele. Usava também uma corrente que devia ser prata no pescoço combinada a um boné de pala reta com um símbolo “DC” nele.
- Ter ela tem, mas não dará pra você. Agora sai da nossa frente. – a Goy disse com sua voz fofinha de menina.
Ela tinha uma mania de fazer isso. Usar palavras duras com uma voz doce e palavras doces com uma voz dura. Isso confundia uma pessoa com as reais intenções dela.
A Goy pode-se dizer que é o olho do grupo. De todas, a mais perceptiva. Nada, absolutamente nada escapava de seu olhar. Sabia ler as pessoas extremamente bem, sabia ler nas entrelinhas. Constantemente ela flagrava as pessoas se contradizendo através da linguagem corporal. Sua aparência costumava enganar as pessoas. Possuía um rosto doce, amigável, gentil e embora ela fosse quando quisesse, poderia ser fatal. Ao contrário de suas amigas, seu cabelo era liso escorrido e quase brancos de tão loiros. Apesar dos seus incríveis olhos esmeraldas virem e perceberem tudo, ninguém sabia ao certo o que se passava com ela.
- E você é o quê, a voz dela? – o garoto perguntou em claro desafio.
Pobre homem, não sabia com quem estava se metendo, se soubesse, talvez nem tivesse olhado diretamente pra elas. Seria esperto e ignoraria a Rina por mais bonita que ele a achasse.
A Goy abriu a boca para falar algo, mas a Rina a segurou.
- Goy, não! Deixa comigo. – a Rina falou olhando pra Goy e pras outras. A mensagem era clara. Ela se soltou das outras e segurando suas sacolas caminhou até o cara estranho.
Ela andou até se afastar o suficiente de suas amigas para que elas não a escutassem. Ele a seguiu. Assim que estavam um em frente ao outro ele sorriu pra ela.
Ela não sorriu de volta.
- Você não é pra mim. – ela disse com calma. Ele franziu o cenho e esperou que ela falasse mais. – Mas eu gostei de você, não sei o porquê disso.
- Isso significa que me dará seu telefone e vamos poder marcar um lance? – ele perguntou animado.
Ela sorriu.
- Não. Nada do meu telefone, ele não é pra qualquer um, mas poderemos sair sim.
- Beleza! – ela comemorou abrindo um sorriso ainda maior.
- SE... Somente se, ninguém souber.
- Claro, claro. Onde passo pra te pegar?
- Oh não. Relaxe, eu encontro você e marco alguma coisa.
- Mas como você...? – ela o interrompeu.
- EU encontro você. Não se preocupe.
- Pode me dizer ao menos seu nome?
- Rina.
- Rina? Você quer dizer, Rina Bass? – ele parecia surpreso.
- Olha, você me conhece. – ela sorriu.
- Sim, eu trabalho pro seu pai! Meu nome é Murilo, Murilo Nogueira. – sua voz era de pura animação.
- Hum, legal Murilo, pegando a filha do chefe, huh? Que sortudo. Mas esquece, eu não vou namorar com você. Agora eu tenho que ir, minhas amigas estão me esperando. Quando EU quiser, eu te procuro. – sua voz demonstrava o quanto ela se importava com tudo isso. E suas palavras também. Ela deu uma piscadinha em flerte pra ele e voltou pras garotas que estavam em frente a uma loja de acessórios.
- Você demorou, decidiu sair com o senhor pobretão foi? – a Sabrina disse rindo.
De todas as quatro talvez a Sabrina fosse quem ligava menos pra dinheiro e status. Incrivelmente ela é quem mais tinha dinheiro delas. Talvez fosse por isso que não ligava. O engraçado é que por um acaso sempre que se interessava por algum cara, ele tinha dinheiro. Sempre.
A Sabrina era o espírito do grupo. De todas ela era a mais alegre, a mais otimista e sua visão de mundo e das coisas era sempre além. Sempre tinha alguma idéia mirabolante e progressiva, ousada e que por mais maluca que fosse, tinha sentido, tinha fundamento, dava certo. Era assim que as coisas eram pra ela. Nada nunca dava errado. O grupo em si não tinha uma líder, mas quem via de fora, poderia dizer que ela era. Ela sempre unia as outras sejam em situações boas, seja em situações ruins. Seja lá o que fosse, era ela que as metia.
A Sabrina parecia mais velha do que realmente era. Seu bom humor e seus sorrisos, além é claro, do seu corpo muito bem provido de curvas, fazia os homens correrem e muito atrás dela. Ela chamava mais atenção do que as outras de certa forma. Sem querer ofender, tinha um corpo típico de mulheres que apareciam em filmes pornôs e revistas do tipo. Sua pele era clara, seu cabelo e seus olhos eram castanhos escuros, um pouco abaixo da cintura e ondulados. Seus olhos escuros sempre carregados de uma maquiagem escura só realçava o seu olhar forte.
- Não sei, vou pensar. Talvez quando eu quiser me misturar eu o procure. Pode ser útil. – todas deram risada e ela deu de ombros.
A verdade era que tinha sim se interessado pelo Murilo. Ele era ligeiramente diferente do que estava habituada e ela gostava de variar.
- Tá ficando tarde, essa vai ser nossa ultima loja, então? Meus pais querem que eu volte cedo hoje. – a Goy disse com um suspiro profundo. Era a única delas que se sentia em alguma espécie de responsabilidade com a família.
Não porque ela quisesse e porque gostasse deles, ela também não gostava, nenhuma delas tinha uma relação muito boa com seus parentes, só que a Goy se não respondesse e obedecesse a eles, teria que lidar com grandes conseqüências nada agradáveis.
- Seus pais? Sério? – elas falaram em uníssono. Nenhuma delas gostava da forma restrita com que se viam fora da escola por causa dos pais da Goy.
Elas não gostavam de sair em dupla, ou em trio, somente quando extremamente necessário. E essa dependência que a Goy tinha dos pais empatava em muita coisa. Era por isso que recentemente elas pensavam seriamente na idéia de morarem juntas. Todas elas já tinha 18 anos, menos a Goy. Que faria em breve.
- Desculpe meninas, eu terei mesmo que ir. – o celular dela deu um bip. Ela olhou pro visor e fez uma cara de chateada. – Deixa pra lá, não dá nem pra essa ultima loja. Minha mãe me quer em casa agora. Disse que vai sair, tenho que ir tomar conta do meu irmão.
- Então também iremos pra casa. Não sairemos sem você. – a Sabrina disse e é obvio que todas as outras concordaram mesmo que não quisessem. Era assim que as coisas eram entre elas. Solidariedade sempre. União? Definitivamente sempre.
- Sinto muito. – a Goy disse incomodada. Ela não gostava dessa dependência que tinha dos pais e como eles a tratavam. Pra dizer a verdade ela não via a hora de terminar a escola, fazer seus 18 anos e ir pra faculdade.
- Não esquenta. Temos o suficiente pra nos divertirmos mais tarde. Combinado na minha casa então né? – a Sabrina perguntou sorrindo.
Não era preciso. Nenhuma delas faltaria a noite do pijama que elas faziam todos os sábados numa espécie de rodízio. Tirando a casa da Goy, os pais dela sabiam mesmo encher o saco.
- Claro! – todas as outras responderam em uníssono.
Mal sabiam elas que os planos não sairiam exatamente como elas queriam.
Todo mundo mais cedo ou mais tarde terá um segredo. Um segredo do tipo que se descoberto, acaba com a vida das pessoas envolvidas nele. Esse tipo de segredo se compartilhado se torna responsável por fortalecer um relacionamento já fortalecido.
Mas até onde uma pessoa seria capaz de ir pra proteger um segredo? Será que realmente há um limite pra se proteger e proteger tudo aquilo que você ama?
Elas têm a resposta.
Capítulo 01
- Gostosas! – um grupo de rapazes entre seus 20 e poucos anos gritaram para as quatro garotas que passavam pela rua de braços dados cada uma carregando várias sacolas de loja de roupa.
Nenhuma delas virou o rosto para olhá-los. Elas já estavam mais do que acostumadas a esse tipo de coisa. E mesmo com o costume, elas não conseguiam evitar exibir um sorrisinho de gratificação e de certa forma agradecimento por tal elogio.
Há mulheres que considerariam tal palavra com ultraje e ficaria revoltada ‘como ousam?’ e esse tipo de coisa, só que certamente elas não eram esse tipo de mulher.
Elas sabiam reconhecer a um elogio e sabiam muito bem como recebê-lo. Estavam acostumadas as pessoas endeusarem elas, apenas algumas é claro, e outras as invejarem mais que tudo e outras simplesmente desejarem que elas realmente morressem.
Não que elas se importassem. Não se importavam.
Não seria errado dizer que elas até gostavam de certas inimizades porque isso agitava suas vidas. Constantemente elas eram ameaçadas de morte ou esse tipo de coisa por garotas que elas acabavam com a vida sem querer. Ou não.
Com a Perla entre elas era difícil de acreditar que elas poderiam fazer algo sem saber de todas as conseqüências ou algo impensado, impulsivo.
Perla Lavigne era a cabeça do grupo. Ela é a mais inteligente de todas elas, a aluna modelo, a CDF e também a mais equilibrada. Ela sempre calculava tudo com exatidão, bolava os planos que elas faziam, sabia todos os prós e contras e nunca estava despreparada para nada. Eu disse nada. Com ela sempre havia um plano na manga. Se não tivesse, ela acharia.
Embora não costumasse sorrir muito, tinha um sorriso perfeito. Um sorriso que cativaria muita gente se ela talvez usasse com maior freqüência. Só que no mundo dela, eles eram dispensáveis. Principalmente quando estava em casa, com seus pais.
Seus pais ao contrário dela eram dois desequilibrados obcecados por dinheiro e mais dinheiro. Ambos empresários sabe-se deus do quê extremamente bem sucedidos e ricos. Realmente muito ricos. Cada um tinha seu negocio e se já tinham muito dinheiro separados, imagine juntos. Quem ganhava mais era um constante debate entre eles dois o que fazia com que a Perla se afastasse deles cada vez mais.
Malmente ela os via e malmente queria saber deles. Eram seus pais, mas pra dizer a verdade ela não amava nenhum deles dois. Ambos eram fúteis, mesquinhos e egocêntricos e ah, egoístas também. Eles não amavam ela, isso era obvio e ela não ligava. Se fosse procurar amor, tinha suas amigas pra dar.
Tudo o que queria de seus pais e era grata por isso era o seu dinheiro ilimitado. Também era muito grata aos genes de sua mãe que lhe concedeu um corpo proporcional com curvas que ela preservava muito bem com a prática rotineira da academia. Já seu rosto era mais parecido com o de seu pai. Tinha puxado o mesmo tom de pele morena do dele, seus olhos verdes e é claro, seu cabelo liso ondulado. Sim, ela não tinha muito do que reclamar.
Até porque, graças a deus, seus pais só tinham ela de filha. Bom, ao menos sua mãe. Seu pai tinha um outro filho, um filho bastardo, fora do casamento, que ela só descobriu quando ele morreu.
As meninas continuaram a andar com sua confiança habitual olhando pras vitrines das lojas e todos que passavam por elas as olhavam. Todos as desejavam pelos mais diferentes motivos. Elas sorriam com graça e confiança, nelas mesmas e nas amigas que tinham.
É fácil deixar seu corpo cair para trás se você tiver certeza que tem algo ou alguém ali pra te segurar e você não cair.
Era assim com elas. Confiança era a palavra-chave num relacionamento e no delas era ainda mais importante.
Elas não eram quatro garotas comuns. De comuns elas não possuíam absolutamente nada. Talvez somente sua aparência bonitinha e arrumadinha. Só isso e mais nada.
Os problemas que elas tinham nada tinham a ver com adolescentes normais. Elas não tinham problemas em manter a sua aparência, seu corpo, suas roupas, nem problemas com os garotos.
O dinheiro que elas tinham, principalmente o que a Perla tinha, facilitava a vida delas. A Perla tinha tanto dinheiro, mais tanto dinheiro que nem sabia como gastar tudo aquilo sozinha e dividia com a maior felicidade do mundo com suas amigas fazendo um dia terapêutico de compras como esse.
Oh sim, passar o dia inteirinho na rua batendo perna entre lojas e mais lojas era o remédio preferido delas para curar qualquer coisa. E elas realmente estavam precisando.
Na noite anterior, tinham se reunido as quatro, exatamente à meia-noite no meio da floresta perto da casa da Perla para enterrar uma caixinha que tinha feito juntas.
Na caixa constava nada menos que seus piores segredos. Os segredos que poderiam acabar com a vida não só delas, como de muitas outras pessoas. Segredos que mudavam, que podiam mudar, a vida de uma pessoa.
Elas não sentiam-se no direito de acabar com aquelas provas, com aqueles segredos, mas era o trabalho delas protegê-los. Era isso que elas faziam.
Elas deveriam proteger todo e qualquer segredo que caísse em suas mãos até chegar a hora certo de usá-los. E sempre quem determinava isso era a Perla.
Geralmente quem descobria os segredos alheios era a Rina ou a Goy. A Rina por ser a mais popular delas e a Goy por ser altamente perceptiva.
- Será que a loirinha tem telefone? – um rapaz de aparência razoável perguntou olhando diretamente nos olhos da Rina.
Ela olhou para ele e sorriu. Sim, ela gostava do que ela via. Por um instante ela olhou ele de cima abaixo avaliando e sabia que suas amigas estariam fazendo o mesmo e indicariam o que acharam dele logo, logo fizessem a avaliação. Na dela, ele poderia tirar um oito.
Sim, ele era um oito.
Ele era um pouco mais alto que ela, usava um jeans sem marca, tênis Nike, uma camiseta preta regata também sem marca alguma com um casaco preto. Ele sabia se vestir e combinar, mas também dava logo pra sacar que dinheiro ele não tinha. Mas ele era bonitinho. Tinha um rostinho de bebê e seu cabelo era liso e curto, também era possível ver duas argolas penduradas na orelha dele. Usava também uma corrente que devia ser prata no pescoço combinada a um boné de pala reta com um símbolo “DC” nele.
- Ter ela tem, mas não dará pra você. Agora sai da nossa frente. – a Goy disse com sua voz fofinha de menina.
Ela tinha uma mania de fazer isso. Usar palavras duras com uma voz doce e palavras doces com uma voz dura. Isso confundia uma pessoa com as reais intenções dela.
A Goy pode-se dizer que é o olho do grupo. De todas, a mais perceptiva. Nada, absolutamente nada escapava de seu olhar. Sabia ler as pessoas extremamente bem, sabia ler nas entrelinhas. Constantemente ela flagrava as pessoas se contradizendo através da linguagem corporal. Sua aparência costumava enganar as pessoas. Possuía um rosto doce, amigável, gentil e embora ela fosse quando quisesse, poderia ser fatal. Ao contrário de suas amigas, seu cabelo era liso escorrido e quase brancos de tão loiros. Apesar dos seus incríveis olhos esmeraldas virem e perceberem tudo, ninguém sabia ao certo o que se passava com ela.
- E você é o quê, a voz dela? – o garoto perguntou em claro desafio.
Pobre homem, não sabia com quem estava se metendo, se soubesse, talvez nem tivesse olhado diretamente pra elas. Seria esperto e ignoraria a Rina por mais bonita que ele a achasse.
A Goy abriu a boca para falar algo, mas a Rina a segurou.
- Goy, não! Deixa comigo. – a Rina falou olhando pra Goy e pras outras. A mensagem era clara. Ela se soltou das outras e segurando suas sacolas caminhou até o cara estranho.
Ela andou até se afastar o suficiente de suas amigas para que elas não a escutassem. Ele a seguiu. Assim que estavam um em frente ao outro ele sorriu pra ela.
Ela não sorriu de volta.
- Você não é pra mim. – ela disse com calma. Ele franziu o cenho e esperou que ela falasse mais. – Mas eu gostei de você, não sei o porquê disso.
- Isso significa que me dará seu telefone e vamos poder marcar um lance? – ele perguntou animado.
Ela sorriu.
- Não. Nada do meu telefone, ele não é pra qualquer um, mas poderemos sair sim.
- Beleza! – ela comemorou abrindo um sorriso ainda maior.
- SE... Somente se, ninguém souber.
- Claro, claro. Onde passo pra te pegar?
- Oh não. Relaxe, eu encontro você e marco alguma coisa.
- Mas como você...? – ela o interrompeu.
- EU encontro você. Não se preocupe.
- Pode me dizer ao menos seu nome?
- Rina.
- Rina? Você quer dizer, Rina Bass? – ele parecia surpreso.
- Olha, você me conhece. – ela sorriu.
- Sim, eu trabalho pro seu pai! Meu nome é Murilo, Murilo Nogueira. – sua voz era de pura animação.
- Hum, legal Murilo, pegando a filha do chefe, huh? Que sortudo. Mas esquece, eu não vou namorar com você. Agora eu tenho que ir, minhas amigas estão me esperando. Quando EU quiser, eu te procuro. – sua voz demonstrava o quanto ela se importava com tudo isso. E suas palavras também. Ela deu uma piscadinha em flerte pra ele e voltou pras garotas que estavam em frente a uma loja de acessórios.
- Você demorou, decidiu sair com o senhor pobretão foi? – a Sabrina disse rindo.
De todas as quatro talvez a Sabrina fosse quem ligava menos pra dinheiro e status. Incrivelmente ela é quem mais tinha dinheiro delas. Talvez fosse por isso que não ligava. O engraçado é que por um acaso sempre que se interessava por algum cara, ele tinha dinheiro. Sempre.
A Sabrina era o espírito do grupo. De todas ela era a mais alegre, a mais otimista e sua visão de mundo e das coisas era sempre além. Sempre tinha alguma idéia mirabolante e progressiva, ousada e que por mais maluca que fosse, tinha sentido, tinha fundamento, dava certo. Era assim que as coisas eram pra ela. Nada nunca dava errado. O grupo em si não tinha uma líder, mas quem via de fora, poderia dizer que ela era. Ela sempre unia as outras sejam em situações boas, seja em situações ruins. Seja lá o que fosse, era ela que as metia.
A Sabrina parecia mais velha do que realmente era. Seu bom humor e seus sorrisos, além é claro, do seu corpo muito bem provido de curvas, fazia os homens correrem e muito atrás dela. Ela chamava mais atenção do que as outras de certa forma. Sem querer ofender, tinha um corpo típico de mulheres que apareciam em filmes pornôs e revistas do tipo. Sua pele era clara, seu cabelo e seus olhos eram castanhos escuros, um pouco abaixo da cintura e ondulados. Seus olhos escuros sempre carregados de uma maquiagem escura só realçava o seu olhar forte.
- Não sei, vou pensar. Talvez quando eu quiser me misturar eu o procure. Pode ser útil. – todas deram risada e ela deu de ombros.
A verdade era que tinha sim se interessado pelo Murilo. Ele era ligeiramente diferente do que estava habituada e ela gostava de variar.
- Tá ficando tarde, essa vai ser nossa ultima loja, então? Meus pais querem que eu volte cedo hoje. – a Goy disse com um suspiro profundo. Era a única delas que se sentia em alguma espécie de responsabilidade com a família.
Não porque ela quisesse e porque gostasse deles, ela também não gostava, nenhuma delas tinha uma relação muito boa com seus parentes, só que a Goy se não respondesse e obedecesse a eles, teria que lidar com grandes conseqüências nada agradáveis.
- Seus pais? Sério? – elas falaram em uníssono. Nenhuma delas gostava da forma restrita com que se viam fora da escola por causa dos pais da Goy.
Elas não gostavam de sair em dupla, ou em trio, somente quando extremamente necessário. E essa dependência que a Goy tinha dos pais empatava em muita coisa. Era por isso que recentemente elas pensavam seriamente na idéia de morarem juntas. Todas elas já tinha 18 anos, menos a Goy. Que faria em breve.
- Desculpe meninas, eu terei mesmo que ir. – o celular dela deu um bip. Ela olhou pro visor e fez uma cara de chateada. – Deixa pra lá, não dá nem pra essa ultima loja. Minha mãe me quer em casa agora. Disse que vai sair, tenho que ir tomar conta do meu irmão.
- Então também iremos pra casa. Não sairemos sem você. – a Sabrina disse e é obvio que todas as outras concordaram mesmo que não quisessem. Era assim que as coisas eram entre elas. Solidariedade sempre. União? Definitivamente sempre.
- Sinto muito. – a Goy disse incomodada. Ela não gostava dessa dependência que tinha dos pais e como eles a tratavam. Pra dizer a verdade ela não via a hora de terminar a escola, fazer seus 18 anos e ir pra faculdade.
- Não esquenta. Temos o suficiente pra nos divertirmos mais tarde. Combinado na minha casa então né? – a Sabrina perguntou sorrindo.
Não era preciso. Nenhuma delas faltaria a noite do pijama que elas faziam todos os sábados numa espécie de rodízio. Tirando a casa da Goy, os pais dela sabiam mesmo encher o saco.
- Claro! – todas as outras responderam em uníssono.
Mal sabiam elas que os planos não sairiam exatamente como elas queriam.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Ovelha Negra
Capitulo 28
Eu não entendi ao certo porque tanto espanto. Casais conversavam né? Era assim que namoros funcionavam, não é? A base de conversa.
Era isso o que eu pensava de todos os casais, mas pelo visto eu estava errada. No mínimo errada sobre o Auguste e a Jeniffer ao menos.
“O quê que tem eles conversarem?” perguntei. Era melhor do que ficar ali fingindo estar a par de algo que eu não estava.
“Que eles não fazem isso. Sabe aquele tipo de relacionamento estranho que se baseia apenas em pegação? Eles até se gostam um pouco, mas sei lá. Juntos por conveniência, isso é só. Ou no caso da Jen, insegurança de ir atrás de quem ela gosta de verdade” a Felipa me explicou com o mesmo ar de entediada.
“Ah” que estranho.
Pelo visto o relacionamento desses dois não tinha nada de convencional. Nadinha.
A Jeniffer suspirou e seus olhos começaram a lacrimejar. Eu pisquei sem entender como de repente ela tinha começado a chorar assim.
Era um choro silencioso e seu rosto perfeito estava todo vermelho.
As três outras garotas se juntaram a mim e tocaram na mão dela também ou em qualquer parte que estivesse ao alcance.
Nenhuma delas disse nada.
A Felipa segurava a mão dela como eu. A Aline estava agora em pé atrás da Jen passando a mão em seus cabelos e a Trisha enxugando as lágrimas que caiam no rosto dela.
Eu não vou negar que eu estranhei que alguém tão má como a Trisha estivesse realmente com aquele olhar de preocupação. E outra coisa. Todas elas estavam.
Eu me senti meio mal. Que motivo levaria a Jen chorar desse jeito? Não poderia ser por causa desse pequeno conflito entre ela e seus casos amorosos não é? A conversa com o Auguste tinha sido tão ruim assim? Ela tinha ficado assim depois de mencionar a conversa.
Mas ele tinha me dito ontem e ao Daniel que estava tudo bem e resolvido entre eles. Eles tinham se falado depois daquilo? Tinha tido outra conversa?
“Não é tão f-fácil quanto pa-parece, s-sabe?”a Jen disse entre soluços. “Ser O C-CASAL. É difícil manter, é difícil aturar tudo isso. E principalmente... E principalmente... E principalmente” ela não terminou.
“Seus pais?” a Trisha perguntou olhando séria pra ela. A Jen apenas assentiu com a cabeça. “Certo. A gente entende” a Trisha pareceu que queria dizer algo, mas fechou a boca e me olhou carrancuda.
Eu não era bem-vinda por ela. Eu estava ali de intrusa. Eu não era amiga delas, eu não era parte delas. A realidade tinha me atingido com um balde de água fria.
Outsider. Era isso que eu era, não teria palavra melhor. Logicamente que seria a Trisha a me lembrar disso.
“Tem algo que a gente possa fazer?” resolvi que o melhor seria me concentrar na Jen e ignorar a Trisha.
Talvez ela fosse uma daquelas garotas que não tem jeito.
“O Auguste disse que me ama” foi a resposta da Jeniffer. As meninas ficaram ainda mais surpresas do que quando viram que eles conversaram.
“E você?” a Aline perguntou.
A Jeniffer passou a mão no rosto enxugando as lágrimas e parecia melhor quando decidiu falar.
“O que você acha? Eu respondi que o amo também. Não é mentira, sabe. Eu amo o Auguste. Só que não... Dessa forma. Ele me disse que não queria que a gente terminasse, que nós éramos O casal da escola e gostaria que continuasse assim. Que não queria que nada atrapalhasse e que estava só curioso sobre... Bem, sobre você” ela olhou pra mim.
Então era isso que o Auguste queria comigo? Nada? Tudo o que tínhamos passado não significava NADA pra ele?
“Curioso sobre mim? Por que ele faria isso?” franzi o cenho.
“Vamos lá senhora espertinha. Você é a única na escola inteira que tem um quarto próprio. Ninguém aqui tem isso, nem mesmo o líder da Aristos. Somente alguns professores possuem, os mais antigos. No entanto você tem. E você acabou de chegar. É uma NOVATA” Trisha, é claro.
Sempre Trisha.
“Certo. Eu acho. Olha, não tem nada de especial sobre mim. Sei tanto quanto vocês. Meu pai escolheu essa escola, aceitei vir pra cá. Como vocês devem saber, não se tem escolha enquanto se é menor de idade. Cheguei aqui, me deram aquele quarto. Disseram que era o único vago” dei de ombros.
“Não precisa falar assim. Acreditamos em você” a Felipa me disse sorrindo. A Trisha ia abrir a boca e provavelmente destilar mais do seu veneno, mas apenas se calou com o olhar da Felipa.
“Ótimo. Porque é a verdade. Não sei porque me deram aquele quarto” dei de ombros.
“Já achou quem roubou o seu anel?” eu pisquei duas vezes.
Elas sabiam disso? Uma pergunta melhor, era possível que elas não soubessem de algo? Aquelas meninas pareciam saber de tudo. Era meio assustador.
“Vocês sabem disso?” elas simplesmente riram, até a Jeniffer.
“Nós sabemos de tudo, Catarina. Tudo” será que sabiam sobre o que tinha rolado entre eu e o Auguste? Não. Não podiam saber.
Acho que a Jeniffer não estaria do jeito que está se tivesse.
“Não achei. Acho que alguém entrou no meu quarto e pegou” na verdade essa era a idéia do Dan, mas mesmo assim.
“Não tenha dúvida. Alguém fez isso. O anel não é pra qualquer um, parabéns por tê-lo recebido a propósito” eu decidi que delas a quem eu mais gostava era da Felipa.
Ela podia parecer entediada e alheia aos fatos, mas ela não era. Delas todas, ela parecia a mais legal, a mais simpática.
“Obrigada, eu acho” não é como se eu tivesse feito nada.
“Não fique assim, ninguém ganha ele sem muito esforço, sem merecer. Você deve ser uma excelente aluna pra ganhá-lo tão rápido assim” bom, é, eu tinha notas boas.
“Nada impossível” dei de ombros. Eu não gostava de falar das minhas notas. Isso só me tornava ainda mais esquisita aos olhos das outras pessoas. Eu era boa e entendia tudo muito rápido e minha memória fotográfica só facilitava isso, mas me impedia de uma vida social satisfatória.
Um celular começou a tocar. Era o da Felipa.
“Alarme, temos que ir. Ainda temos que trocar de roupa e pegar nossas mochilas. Nos vemos mais tarde, Catarina. Foi bom conhecer você de fato” ela disse sorrindo pra mim.
Todas as outras sorriram pra mim também, inclusive a Trisha. Elas foram se retirando, a Aline ainda do lado da Jeniffer falando algo com ela e a Felipa distraída pra variar mexendo no seu celular.
A Trisha pareceu esperar elas irem e ficou pra trás um pouco.
“Só uma coisinha: não é porque a Jeniffer é aberta sobre a vida dela e porque ela foi com a sua cara e deixamos você partilhar um momento de fraqueza dela e porque você talvez tenha nos visto, que significa que você é parte de nós. Você não é. Não sei o que você esconde, mas você esconde algo e eu vou descobrir. E faça um favor a você mesma, não fique com o Auguste Saint Clair, pro seu próprio bem” eu fiquei sem reação com a ultima frase.
ELAS SABIAM!
“Não, as meninas não sabem, não contei pra elas. Elas contariam pra Jen. Não achei saudável. Fique fora da vida dela, ok? Ela já sofre demais, não precisa de alguém que não tem o que fazer e vida própria bagunçando com a vida dela. Acredite, eu garantirei pessoalmente que nada a faça sofrer mais. Então... Fique esperta novata. Fique esperta” a Trisha sorriu com a cara mais amável do mundo.
Como ela conseguia isso? Num instante praticamente ameaça acabar com a minha raça e no segundo seguinte está me olhando e sorrindo como se eu fosse BFF dela? ASSUSTADOR! MUITO!
Agora eu entendia o que o Dan quis dizer sobre sobreviver aqui no CSP.
Eu não entendi ao certo porque tanto espanto. Casais conversavam né? Era assim que namoros funcionavam, não é? A base de conversa.
Era isso o que eu pensava de todos os casais, mas pelo visto eu estava errada. No mínimo errada sobre o Auguste e a Jeniffer ao menos.
“O quê que tem eles conversarem?” perguntei. Era melhor do que ficar ali fingindo estar a par de algo que eu não estava.
“Que eles não fazem isso. Sabe aquele tipo de relacionamento estranho que se baseia apenas em pegação? Eles até se gostam um pouco, mas sei lá. Juntos por conveniência, isso é só. Ou no caso da Jen, insegurança de ir atrás de quem ela gosta de verdade” a Felipa me explicou com o mesmo ar de entediada.
“Ah” que estranho.
Pelo visto o relacionamento desses dois não tinha nada de convencional. Nadinha.
A Jeniffer suspirou e seus olhos começaram a lacrimejar. Eu pisquei sem entender como de repente ela tinha começado a chorar assim.
Era um choro silencioso e seu rosto perfeito estava todo vermelho.
As três outras garotas se juntaram a mim e tocaram na mão dela também ou em qualquer parte que estivesse ao alcance.
Nenhuma delas disse nada.
A Felipa segurava a mão dela como eu. A Aline estava agora em pé atrás da Jen passando a mão em seus cabelos e a Trisha enxugando as lágrimas que caiam no rosto dela.
Eu não vou negar que eu estranhei que alguém tão má como a Trisha estivesse realmente com aquele olhar de preocupação. E outra coisa. Todas elas estavam.
Eu me senti meio mal. Que motivo levaria a Jen chorar desse jeito? Não poderia ser por causa desse pequeno conflito entre ela e seus casos amorosos não é? A conversa com o Auguste tinha sido tão ruim assim? Ela tinha ficado assim depois de mencionar a conversa.
Mas ele tinha me dito ontem e ao Daniel que estava tudo bem e resolvido entre eles. Eles tinham se falado depois daquilo? Tinha tido outra conversa?
“Não é tão f-fácil quanto pa-parece, s-sabe?”a Jen disse entre soluços. “Ser O C-CASAL. É difícil manter, é difícil aturar tudo isso. E principalmente... E principalmente... E principalmente” ela não terminou.
“Seus pais?” a Trisha perguntou olhando séria pra ela. A Jen apenas assentiu com a cabeça. “Certo. A gente entende” a Trisha pareceu que queria dizer algo, mas fechou a boca e me olhou carrancuda.
Eu não era bem-vinda por ela. Eu estava ali de intrusa. Eu não era amiga delas, eu não era parte delas. A realidade tinha me atingido com um balde de água fria.
Outsider. Era isso que eu era, não teria palavra melhor. Logicamente que seria a Trisha a me lembrar disso.
“Tem algo que a gente possa fazer?” resolvi que o melhor seria me concentrar na Jen e ignorar a Trisha.
Talvez ela fosse uma daquelas garotas que não tem jeito.
“O Auguste disse que me ama” foi a resposta da Jeniffer. As meninas ficaram ainda mais surpresas do que quando viram que eles conversaram.
“E você?” a Aline perguntou.
A Jeniffer passou a mão no rosto enxugando as lágrimas e parecia melhor quando decidiu falar.
“O que você acha? Eu respondi que o amo também. Não é mentira, sabe. Eu amo o Auguste. Só que não... Dessa forma. Ele me disse que não queria que a gente terminasse, que nós éramos O casal da escola e gostaria que continuasse assim. Que não queria que nada atrapalhasse e que estava só curioso sobre... Bem, sobre você” ela olhou pra mim.
Então era isso que o Auguste queria comigo? Nada? Tudo o que tínhamos passado não significava NADA pra ele?
“Curioso sobre mim? Por que ele faria isso?” franzi o cenho.
“Vamos lá senhora espertinha. Você é a única na escola inteira que tem um quarto próprio. Ninguém aqui tem isso, nem mesmo o líder da Aristos. Somente alguns professores possuem, os mais antigos. No entanto você tem. E você acabou de chegar. É uma NOVATA” Trisha, é claro.
Sempre Trisha.
“Certo. Eu acho. Olha, não tem nada de especial sobre mim. Sei tanto quanto vocês. Meu pai escolheu essa escola, aceitei vir pra cá. Como vocês devem saber, não se tem escolha enquanto se é menor de idade. Cheguei aqui, me deram aquele quarto. Disseram que era o único vago” dei de ombros.
“Não precisa falar assim. Acreditamos em você” a Felipa me disse sorrindo. A Trisha ia abrir a boca e provavelmente destilar mais do seu veneno, mas apenas se calou com o olhar da Felipa.
“Ótimo. Porque é a verdade. Não sei porque me deram aquele quarto” dei de ombros.
“Já achou quem roubou o seu anel?” eu pisquei duas vezes.
Elas sabiam disso? Uma pergunta melhor, era possível que elas não soubessem de algo? Aquelas meninas pareciam saber de tudo. Era meio assustador.
“Vocês sabem disso?” elas simplesmente riram, até a Jeniffer.
“Nós sabemos de tudo, Catarina. Tudo” será que sabiam sobre o que tinha rolado entre eu e o Auguste? Não. Não podiam saber.
Acho que a Jeniffer não estaria do jeito que está se tivesse.
“Não achei. Acho que alguém entrou no meu quarto e pegou” na verdade essa era a idéia do Dan, mas mesmo assim.
“Não tenha dúvida. Alguém fez isso. O anel não é pra qualquer um, parabéns por tê-lo recebido a propósito” eu decidi que delas a quem eu mais gostava era da Felipa.
Ela podia parecer entediada e alheia aos fatos, mas ela não era. Delas todas, ela parecia a mais legal, a mais simpática.
“Obrigada, eu acho” não é como se eu tivesse feito nada.
“Não fique assim, ninguém ganha ele sem muito esforço, sem merecer. Você deve ser uma excelente aluna pra ganhá-lo tão rápido assim” bom, é, eu tinha notas boas.
“Nada impossível” dei de ombros. Eu não gostava de falar das minhas notas. Isso só me tornava ainda mais esquisita aos olhos das outras pessoas. Eu era boa e entendia tudo muito rápido e minha memória fotográfica só facilitava isso, mas me impedia de uma vida social satisfatória.
Um celular começou a tocar. Era o da Felipa.
“Alarme, temos que ir. Ainda temos que trocar de roupa e pegar nossas mochilas. Nos vemos mais tarde, Catarina. Foi bom conhecer você de fato” ela disse sorrindo pra mim.
Todas as outras sorriram pra mim também, inclusive a Trisha. Elas foram se retirando, a Aline ainda do lado da Jeniffer falando algo com ela e a Felipa distraída pra variar mexendo no seu celular.
A Trisha pareceu esperar elas irem e ficou pra trás um pouco.
“Só uma coisinha: não é porque a Jeniffer é aberta sobre a vida dela e porque ela foi com a sua cara e deixamos você partilhar um momento de fraqueza dela e porque você talvez tenha nos visto, que significa que você é parte de nós. Você não é. Não sei o que você esconde, mas você esconde algo e eu vou descobrir. E faça um favor a você mesma, não fique com o Auguste Saint Clair, pro seu próprio bem” eu fiquei sem reação com a ultima frase.
ELAS SABIAM!
“Não, as meninas não sabem, não contei pra elas. Elas contariam pra Jen. Não achei saudável. Fique fora da vida dela, ok? Ela já sofre demais, não precisa de alguém que não tem o que fazer e vida própria bagunçando com a vida dela. Acredite, eu garantirei pessoalmente que nada a faça sofrer mais. Então... Fique esperta novata. Fique esperta” a Trisha sorriu com a cara mais amável do mundo.
Como ela conseguia isso? Num instante praticamente ameaça acabar com a minha raça e no segundo seguinte está me olhando e sorrindo como se eu fosse BFF dela? ASSUSTADOR! MUITO!
Agora eu entendia o que o Dan quis dizer sobre sobreviver aqui no CSP.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Obstáculos de uma amizade
A memória mais antiga que eu tenho é de quando eu tinha 4 anos. Eu estava na escola e era o meu primeiro dia de aula, eu tinha chegado 3 meses depois das aulas começarem. E foi justamente nesse dia que eu conheci a Lisa, a minha melhor amiga. Enquanto todas as outras crianças me olhavam estranho e se afastavam de mim, ela veio e se sentou comigo. Abriu um sorriso contagiante e disse um “Oi”.
Eu era muito tímida e apenas sorri de volta e baixei a cabeça. A professora então me apresentou pra toda a turma que continuava a me rejeitar. Não importava o que os professores fizessem, todos sempre me rejeitavam, todos menos a Lisa. Eu era a garota nova, a estranha, a que não pertencia ao grupo deles. Devia ter umas 20 crianças naquela sala. E não muito surpreendente Lisa era a garota que todo mundo mais gostava.
E por alguma razão, a pessoa que a Lisa mais gostava, era eu. Ela passou a fazer tudo comigo, daquele dia em diante, dividíamos o lanche, os brinquedos, ajudávamos as outras nos deveres. Não demorou muito a passarmos a freqüentarmos a casa uma da outra, nossos pais se conheceram. Viagem com a família, ela com a minha pra Italia, eu com a dela pros EUA e tantas outras coisas que marcaram a nossa amizade através dos anos.
Só que, logicamente nós tivemos nossos problemas como todas as amizades tem, e o que diferencia isso, é como a gente lida com a situação. Só que infelizmente nem toda a situação pode ser resolvida. Existem coisas que são imperdoáveis pra uma melhor amiga fazer.
E eu fiz. Eu fiz e o mais doido nisso é que não consigo me sentir culpada nem nada. Eu não sei se eu faria de novo se pudesse, mas não me arrependo de ter feito.
“Vocês não vão mesmo se falar?” o Lucas me perguntou parecendo me avaliar enquanto eu observava a Lisa de longe. Pode-se dizer que ele é o motivo de toda confusão, mas eu não direi isso, porque não acho que seja a verdade.
“Eu acho que acabou, Luke” sorri pra ele e dei de ombros jogando o cigarro no chão e amassando com o pé. “Tudo acaba. É assim que o mundo funciona” e pode parecer fria a minha atitude de não ligar tanto. Só... Não sei. Parece mais fácil assim.
“Eu não posso deixar vocês duas estragarem tudo por mim, quer dizer... Beth, vocês são inseparáveis” e eu dei uma risada tão fria que gelou a mim mesma e ao Luke também. Ele franziu o cenho e me olhou tão receoso e cheio de medo que eu podia entender o que ele queria dizer com aquilo e eu até concordava. Eu não era mais eu.
“Não foi por você, Luke. Não se ache tanto” eu dei-lhe um soco no seu braço e ele me puxou pra ele me dando um forte abraço.
“Eu amo você. Você sabe disso, não sabe?” e eu sabia. Mais do que qualquer outra coisa no mundo, eu tinha certeza do amor do Luke por mim. E o preço que eu tive que pagar por essa felicidade tinha sido a minha mais cara amizade.
“Eu também te amo” abracei-o ainda mais forte apertando meu corpo contra o dele e deixando o cheiro dele invadir os meus sentidos. Nada mais importava. Nada mais devia importar.
Eu não resisti de não abrir os olhos e dar mais uma espiada na Lisa. Agora era ela quem nos observava com claro ódio. E ela tinha razão por me odiar. Afinal, eu tinha ido embora por cinco anos, cinco anos que nos vimos e nos falamos, e quando volto, eu roubo o namorado dela. O cara que ela vivia dizendo que era o amor da vida dela, que ela queria se casar, e que nada no mundo os separaria jamais. Eu, logo eu, dentre todas as pessoas sabia da importância que o Lucas tinha pra ela. Logo eu, dentre todas as pessoas, o tirei dela. E logo eu, não sentia culpa por fazê-lo.
“Ei, deixa ela lá. Não fica encarando” ele me repreendeu quando me viu olhando pra ela. Isso tinha virado uma espécie de ritual. Todos os dias, enquanto esperávamos o ônibus pra voltarmos pra casa, estava a Lisa distante da gente nos olhando e eu olhando pra ela e ele sempre dizia a mesma coisa.
“Você a ama?” era uma pergunta que eu nunca tinha feito com medo da resposta porque eu já sabia a resposta afinal de contas. Eles tinham ficado juntos por quatro anos inteiros, eram O CASAL da escola. A maioria das pessoas os consideravam casados já.
“Amo” ele confirmou e não disse mais nada. Nenhuma daquelas frases clichês reconfortantes “Mas eu amo você mais” nada disso. E ele não o faria. No final das contas, eu não precisava delas, porque eu sabia disso, eu podia ver nos olhos dele que ele me amava e a amava, só que de formas distintas. Muito distintas. “Ela vai ficar bem, ela é forte” ele pareceu falar isso mais pra ele do que pra mim.
“Não. Ela não é forte, mas ficará bem. Mais amada que a Lisa é meio difícil” suspirei. Ela sempre me protegeu de tudo e de todos, mesmo eu sendo a mais forte. E no final das contas, ela não conseguiu se proteger de mim.
“Você ainda se culpa? Por ter ficado comigo?” eu e ele já tínhamos discutido isso várias vezes e a conclusão era sempre a mesma.
“Não. Aconteceu o que tinha que acontecer, se eu não tivesse aparecido, vocês teriam cometido um GRANDE erro. Iria estragar a vida dos dois. Você não é cara pra ela, Luke” ele riu e concordou.
“Eu sei. Ela sempre foi como uma bonequinha de porcelana, eu achava que ela poderia quebrar a qualquer minuto e sei lá, ela sempre foi tão bonita sabe? Era o tipo de garota que eu achava que sempre quis, a gente conversava muito, mas eu não me abria pra ela, eu até tentava, mas não conseguia, eu ficava com medo ou sei lá o que, com você não... É como se você fosse como eu. Eu sei que você pode me julgar, falar mal de mim, mas também sei que não importa o que eu faça, você estará comigo” ele deu um beijo no topo da minha cabeça e olhou pra ela.
“O mais doido de tudo é que no final das contas, mesmo eu estando errada, e sendo uma total bitch com ela, se ela fosse mesmo minha amiga, nada disso impediaria a gente de se falar e ser amiga. Brigar tudo Ok, ficar sem se falar por um tempo também, mas não pra sempre...” e isso nessa história toda era a única coisa que me doía.
Eu realmente não me arrependo de nada do que eu fiz, do que eu disse, mesmo machucando ela. A única coisa que dói, é saber que se ela não quer mais ser minha amiga, é porque de fato ela nunca foi. Ela nunca me amou como ela disse que amava, incondicionalmente.
“Nada irá nos separar, nunca! Nosso amor é incondicional, não importa o que a gente faça...” foi o que ela me disse uma vez. Talvez eu tenha sido tola por acreditar, não sei. Talvez eu tenha extrapolado demais roubando o provável amor da vida dela ainda mais na noite do baile de formatura. Talvez a culpa tenha sido minha por tê-la traído da pior forma possível, talvez traição não esteja incluída no plano de “amizade que supera tudo”. Eu não sei...
Tudo o que sei, é que por mais que eu tente não pensar nisso e não esperar, acho que sempre haverá uma gota de esperança de ter a Lisa de volta ao que era antes, só nós duas, sem Lucas, sem Gustavo, ou qualquer outra pessoa. Só eu e ela. Amigas para sempre, como sempre fomos, somos e seremos!
Eu era muito tímida e apenas sorri de volta e baixei a cabeça. A professora então me apresentou pra toda a turma que continuava a me rejeitar. Não importava o que os professores fizessem, todos sempre me rejeitavam, todos menos a Lisa. Eu era a garota nova, a estranha, a que não pertencia ao grupo deles. Devia ter umas 20 crianças naquela sala. E não muito surpreendente Lisa era a garota que todo mundo mais gostava.
E por alguma razão, a pessoa que a Lisa mais gostava, era eu. Ela passou a fazer tudo comigo, daquele dia em diante, dividíamos o lanche, os brinquedos, ajudávamos as outras nos deveres. Não demorou muito a passarmos a freqüentarmos a casa uma da outra, nossos pais se conheceram. Viagem com a família, ela com a minha pra Italia, eu com a dela pros EUA e tantas outras coisas que marcaram a nossa amizade através dos anos.
Só que, logicamente nós tivemos nossos problemas como todas as amizades tem, e o que diferencia isso, é como a gente lida com a situação. Só que infelizmente nem toda a situação pode ser resolvida. Existem coisas que são imperdoáveis pra uma melhor amiga fazer.
E eu fiz. Eu fiz e o mais doido nisso é que não consigo me sentir culpada nem nada. Eu não sei se eu faria de novo se pudesse, mas não me arrependo de ter feito.
“Vocês não vão mesmo se falar?” o Lucas me perguntou parecendo me avaliar enquanto eu observava a Lisa de longe. Pode-se dizer que ele é o motivo de toda confusão, mas eu não direi isso, porque não acho que seja a verdade.
“Eu acho que acabou, Luke” sorri pra ele e dei de ombros jogando o cigarro no chão e amassando com o pé. “Tudo acaba. É assim que o mundo funciona” e pode parecer fria a minha atitude de não ligar tanto. Só... Não sei. Parece mais fácil assim.
“Eu não posso deixar vocês duas estragarem tudo por mim, quer dizer... Beth, vocês são inseparáveis” e eu dei uma risada tão fria que gelou a mim mesma e ao Luke também. Ele franziu o cenho e me olhou tão receoso e cheio de medo que eu podia entender o que ele queria dizer com aquilo e eu até concordava. Eu não era mais eu.
“Não foi por você, Luke. Não se ache tanto” eu dei-lhe um soco no seu braço e ele me puxou pra ele me dando um forte abraço.
“Eu amo você. Você sabe disso, não sabe?” e eu sabia. Mais do que qualquer outra coisa no mundo, eu tinha certeza do amor do Luke por mim. E o preço que eu tive que pagar por essa felicidade tinha sido a minha mais cara amizade.
“Eu também te amo” abracei-o ainda mais forte apertando meu corpo contra o dele e deixando o cheiro dele invadir os meus sentidos. Nada mais importava. Nada mais devia importar.
Eu não resisti de não abrir os olhos e dar mais uma espiada na Lisa. Agora era ela quem nos observava com claro ódio. E ela tinha razão por me odiar. Afinal, eu tinha ido embora por cinco anos, cinco anos que nos vimos e nos falamos, e quando volto, eu roubo o namorado dela. O cara que ela vivia dizendo que era o amor da vida dela, que ela queria se casar, e que nada no mundo os separaria jamais. Eu, logo eu, dentre todas as pessoas sabia da importância que o Lucas tinha pra ela. Logo eu, dentre todas as pessoas, o tirei dela. E logo eu, não sentia culpa por fazê-lo.
“Ei, deixa ela lá. Não fica encarando” ele me repreendeu quando me viu olhando pra ela. Isso tinha virado uma espécie de ritual. Todos os dias, enquanto esperávamos o ônibus pra voltarmos pra casa, estava a Lisa distante da gente nos olhando e eu olhando pra ela e ele sempre dizia a mesma coisa.
“Você a ama?” era uma pergunta que eu nunca tinha feito com medo da resposta porque eu já sabia a resposta afinal de contas. Eles tinham ficado juntos por quatro anos inteiros, eram O CASAL da escola. A maioria das pessoas os consideravam casados já.
“Amo” ele confirmou e não disse mais nada. Nenhuma daquelas frases clichês reconfortantes “Mas eu amo você mais” nada disso. E ele não o faria. No final das contas, eu não precisava delas, porque eu sabia disso, eu podia ver nos olhos dele que ele me amava e a amava, só que de formas distintas. Muito distintas. “Ela vai ficar bem, ela é forte” ele pareceu falar isso mais pra ele do que pra mim.
“Não. Ela não é forte, mas ficará bem. Mais amada que a Lisa é meio difícil” suspirei. Ela sempre me protegeu de tudo e de todos, mesmo eu sendo a mais forte. E no final das contas, ela não conseguiu se proteger de mim.
“Você ainda se culpa? Por ter ficado comigo?” eu e ele já tínhamos discutido isso várias vezes e a conclusão era sempre a mesma.
“Não. Aconteceu o que tinha que acontecer, se eu não tivesse aparecido, vocês teriam cometido um GRANDE erro. Iria estragar a vida dos dois. Você não é cara pra ela, Luke” ele riu e concordou.
“Eu sei. Ela sempre foi como uma bonequinha de porcelana, eu achava que ela poderia quebrar a qualquer minuto e sei lá, ela sempre foi tão bonita sabe? Era o tipo de garota que eu achava que sempre quis, a gente conversava muito, mas eu não me abria pra ela, eu até tentava, mas não conseguia, eu ficava com medo ou sei lá o que, com você não... É como se você fosse como eu. Eu sei que você pode me julgar, falar mal de mim, mas também sei que não importa o que eu faça, você estará comigo” ele deu um beijo no topo da minha cabeça e olhou pra ela.
“O mais doido de tudo é que no final das contas, mesmo eu estando errada, e sendo uma total bitch com ela, se ela fosse mesmo minha amiga, nada disso impediaria a gente de se falar e ser amiga. Brigar tudo Ok, ficar sem se falar por um tempo também, mas não pra sempre...” e isso nessa história toda era a única coisa que me doía.
Eu realmente não me arrependo de nada do que eu fiz, do que eu disse, mesmo machucando ela. A única coisa que dói, é saber que se ela não quer mais ser minha amiga, é porque de fato ela nunca foi. Ela nunca me amou como ela disse que amava, incondicionalmente.
“Nada irá nos separar, nunca! Nosso amor é incondicional, não importa o que a gente faça...” foi o que ela me disse uma vez. Talvez eu tenha sido tola por acreditar, não sei. Talvez eu tenha extrapolado demais roubando o provável amor da vida dela ainda mais na noite do baile de formatura. Talvez a culpa tenha sido minha por tê-la traído da pior forma possível, talvez traição não esteja incluída no plano de “amizade que supera tudo”. Eu não sei...
Tudo o que sei, é que por mais que eu tente não pensar nisso e não esperar, acho que sempre haverá uma gota de esperança de ter a Lisa de volta ao que era antes, só nós duas, sem Lucas, sem Gustavo, ou qualquer outra pessoa. Só eu e ela. Amigas para sempre, como sempre fomos, somos e seremos!
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Ovelha Negra
Como eu falei antes, o titulo "A garota nova" era um titulo provisório enquanto eu não arranjava coisa melhor... Aceitando uma sugestão, ficará esse que é bem melhor que o anterior... ;)
Capítulo 01
A primeira coisa que uma pessoa via quando chegasse na entrada do CSP era uma linda fonte onde havia uma estátua de um anjo esculpida em mármore. A fonte ficava logo depois do portão de entrada e surpreendia a todos a que olhavam para ela, mesmo aqueles que já tinham ouvido falar.
Construída em 1954 como um presente do antigo dono da propriedade a sua mulher, um presente de casamento. Um anjo esculpido com sua face. Ao menos era isso o que dizia no folhetim que recebi da escola. Sim, eu li o folhetim.
Sei que isso não é o tipo de coisa que alunos fazem, mas eu queria reunir o máximo de informações possíveis antes de chegar na escola. Afinal de contas, eu iria entrar na escola durante o meio do ano, não era uma coisa boa de fazer.
Entrar na CSP é extremamente difícil, porque eles são extremamente seletivos com seus alunos E professores pelo o que eu ouvi. É quase como uma faculdade antecipada. É preciso uma prova pra entrar, além de ter um histórico escolar quase que impecável e ainda assim, é difícil, pois as vagas são para poucos.
Encarando os fatos eu só entrei por causa do meu pai. Ele é um agente militar condecorado várias vezes por serviços prestados ao país. Então sim, só mesmo alguém de tamanha importância pra conseguir uma vaga na CSP bem no meio do ano. Então como você já deve ter percebido, isso não acontece com freqüência na escola. Provavelmente será algo que todos já devem saber, toda a escola, que não é exatamente pequena.
“Senhorita Oliveira, aguarde aqui um instante, em poucos minutos o diretor irá atendê-la” disse um dos soldados que bajulavam o meu pai pra mim. Ele sorriu, mas eu não sorri de volta. Não tinha por quê.
“Tudo bem” respondi e vaguei meu olhar pelo lugar. Era certamente um lugar bonito. Ao menos até onde eu já tinha visto. Agora eu me encontrava fora do lado da sala do diretor, onde tinha uma recepcionista me encarando de forma bem chata. Era curiosidade e ao mesmo tempo... Medo?! Céus, fico pensando o tipo de boato que já espalharam.
O lugar não tinha muito pra olhar, o principal eram os quadros de arte na parede. Havia uns 3 ou 4 quadros que certamente despertaram a minha atenção. O primeiro era de uma mulher sentada em um degrau fora de uma casa com um tom sombrio e ela parecia estar triste, chorando, mas havia um sorriso discreto em seu rosto. O que me leva a pensar porque um artista pintaria tal desincronia. O segundo era de uma floresta onde as arvores não tinham folhas e havia uma mulher parecida com a do primeiro quadro, só que agora ela estava em um vestido preto em camadas e estava de costas. Era tão intrigante quanto o outro. O que ela estaria fazendo numa floresta assim, vestida assim, à noite?
E o terceiro, bem, o terceiro não era de uma mulher. Era uma garota. Uma criança. Meio parecida com a dos quadros anteriores, mas claramente não era a mesma pessoa. A dos dois outros quadros tinham olhos azuis brilhantes, a dessa criança eram castanhos e havia um brilho no olhar que a tornava especial. O restante do quadro era simples, um parquinho onde havia várias outras crianças brincando e sorrindo, mas esta em particular estava olhava pra quem estava olhando o quadro. Parecia quase que como uma fotografia de tão perfeito e preciso o quadro. E o quarto...
“Ah, senhor Sales, que bom que o senhor chegou. Está atrasado! O diretor quer falar com você e... O que aconteceu com suas vestes? É melhor se arrumar antes de ir falar com o diretor e principalmente, antes que um dos alunos veja você desse jeito” uma voz menina falou para algum cara que certamente tinha aparecido. Evitei virar de vez pra não parecer bisbilhoteira e resolvi que olhar de rabo era melhor.
E fiquei realmente surpresa com o que pude ver. Havia um cara em frente a tal recepcionista e meu deus, que cara! Não dava pra ver se ele era bonito, mas forte e músculo totalmente dava pra ver. Ao contrário dos homens que eu tinha visto por aqui, ele estava com a camisa pra fora da calça e a gravata apenas em volta do pescoço, sem nó algum. O cabelo estava todo desarrumado e a camisa parecia que ele tinha dormido com ela. Quando eu vi que ele me olhou, eu olhei rapidamente de volta para os quadros, tentando concluir minhas análises e ignorá-lo.
Logicamente que eu não consegui me concentrar na análise de novo. Eu estava querendo era dar mais uma espiadinha nele. Que tipo de problema será que ele tinha se metido pro diretor querer falar com ele? Não consegui imaginar nenhum aluno do CSP se metendo em problemas a ponto de ser levado para o diretor. Não eram todos alunos modelos?!
Quando resolvi ceder a tentação de olhar de novo para o tal cara misterioso eu percebi que não havia mais ninguém na recepção. Nem ele e nem a recepcionista. Onde será que tinham ido?
“Procurando-me?” uma voz masculina e forte falou ao meu lado e eu soltei um gritinho de susto. Ele apenas me olhou sorrindo. Era o tal cara e ele não era apenas bonito, ele era LINDO. Do tipo de cara que é modelo. Do tipo de cara que é ator. Do tipo de cara que está na capa das revistas e que nos faz suspirar e desejar ter. “Desculpe-me por tê-la assustado. Bonitos não?” ele falou indicando o queixo para os quadros. “Também adoro eles” e deu um suspiro estranho.
“São... Fascinantes e misteriosos, isso me atrai, eu acho” dei de ombros e ele apenas ficou me encarando.
“Uau. É a primeira pessoa que eu vejo dizendo que eles não são óbvios demais” ele riu de novo. Será que ele tinha pensado que eu havia falado alguma besteira pra rir assim? Eu sei que não falei. Tolas as pessoas que vêem isso como algo simples, não são nenhum pouco.
“Como alguém pode dizer isso? E são tão bem pintados... Quer dizer, olha isso” apontei pro vestido em camadas da mulher do segundo quadro. Ele apenas assentiu olhando deslumbrado e ao mesmo tempo... Triste?
“Você realmente tem um bom gosto garota” ele sorriu amistoso e então me estendeu a mão. “Enzo, Enzo Sales” e eu olhei pra mão dele e respondi apenas um “Olá Enzo, eu me chamo...” nem precisei responder porque alguém respondeu por mim.
“Catarina Oliveira! Que imenso prazer recebê-la” um velho gordo, barrigudo, de cabelos brancos, alto, bem vestido e bem, lindo, abriu os braços pra me receber. Era o diretor.
“Olá senhor. Muito obrigada por me receber aqui no CSP ainda mais em tais circunstâncias” disse minha fala ensaiada a qual meu pai me obrigou. “Sei que não deve ter sido fácil, agradeço muito” dei-lhe um sorriso falso, mas ao menos tentei aparentar sinceridade.
“Oh senhorita. Com notas como a sua, um histórico escolar como o seu, certamente não foi tão difícil assim não é mesmo? Definitivamente é do tipo de alunas como você que estamos precisando aqui no CSP” ele sorriu sinceramente. É, talvez eu goste dele. Durante todos esses anos acho que me acostumei tanto as falsidades que quase nem lembrava mais de um sorriso verdadeiro.
“Espero que eu renda bons frutos aqui, senhor” sorri e dessa vez mais sincera. Eu reparei no sorrisinho de deboche na cara do cara ao meu lado, do Enzo durante todo o diálogo com o diretor. Olhando agora, até que eles dois se pareciam um pouco. Quer dizer, o Enzo era tão alto quanto ele e ambos tinham os mesmos olhos azuis. Só que o Enzo era loiro, e o cara tinha já os seus cabelos brancos, e enquanto o Enzo tinha músculo, o cara gorduras.
“E com certeza renderá senhorita. Esta é a chave do seu quarto, peça para a senhorita Medeiros mostrá-la onde fica. Ela é a moça da recepção” ele completou sua fala e quando disse sobre a recepcionista, não pude deixar de notar que suas pupilas dilataram e um certo sorrisinho apareceu em seu rosto.
“Oh certo. Eu irei, senhor” e acenei para ele cumprimentando-o com a cabeça e então me virei para olhar pra o Enzo. Eu sorri e murmurei pra ele um “te vejo depois, boa sorte” e ele sorriu de volta, depois um leve tom de vermelho surgiu em suas bochechas e murmurou de volta um “obrigado”.
“Minha sala, Enzo” o diretor mudou seu tom de voz completamente pelo o que pude notar. Era frio e de certa forma parecia desprezo, mas nem tive muito tempo de pensar nisso, porque eu tinha a minha própria vida pra me preocupar do que com um garoto qualquer, mesmo um muito lindo. Certamente ele sabia se cuidar sozinho.
Quando eu cheguei na recepção a moça estava sentada lá mexendo no computador com uma cara séria. Parecia bem importante porque ela estava tentando se concentrar bastante. Mas ao mesmo tempo, era algo que ela estava gostando de fazer, não era daquele tipo de trabalho chato E difícil.
“Err... Senhorita Medeiros” eu a chamei e esperei. Ela demorou uns 5 segundos antes de olhar pra mim e ficou surpresa ao ver que era eu, eu achei.
“Pois não?” era engraçado ouvir esse “pois não” eu sempre achei. Não sei, sempre soou bem falso pra mim e uma forma de manter as pessoas bem distantes.
“O diretor falou para a senhorita me mostrar o meu quarto. Ele já me deu a chave” mostrei a chave pra ela e seus olhos indicavam surpresa.
“Novata e já tem um quarto exclusivo? Deve ser mesmo alguém importante” e levou as mãos aos lábios na mesma hora em que disse isso. Eu ri. Era sempre o gesto que crianças pequenas faziam quando contavam mentiras. Só que o dela nada teve a ver com mentiras e sim, excessiva sinceridade. É, talvez eu gostasse dela.
“Isso é raro por aqui? Ter seu próprio quarto?”
“Somente os professores tem seus próprios quartos. E ainda assim, nem todos eles o possuem. A maioria é compartilhado. Alunos... Não, nenhum deles tem quarto próprio” ela disse indicando com a cabeça a direção certa a seguir.
Era só questão de tempo até essa informação de quarto exclusivo vazar. E se bem conheço adolescentes, até vários deles começarem a querer ter esse mesmo privilégio o que me leva a pensar em qual justificativa o diretor dará. Será certamente muito interessante.
“Então... Quem é você?” ela me perguntou. O engraçado é que ela parecia pensar que eu tinha alguma coisa super interessante e empolgante, como alguma atriz famosa ou sei lá, algo do tipo, algo excitante. Mas acontece que... Não tem nada muito excitante sobre quem eu sou. Quer dizer, tirando o meu dom. Nada demais.
“Hum... Meu nome é Catarina Oliveira” falei mesmo já sabendo que não era isso o que ela queria saber. Provavelmente ela já sabia, já que ela trabalhava para o diretor.
“Eu sei seu nome. Não foi isso que eu perguntei. Quero dizer, me desculpe pelo tom informal, é que nessa escola é formalidades o tempo todo, e eu nem sou assim tão mais velha que você. E eu realmente estou curiosa. Estão dizendo todo tipo de coisa por aí. Inclusive que você é uma filha bastarda do presidente, isso é verdade?” a excitação na voz dela era mais do que clara. Eu apenas ri.
“Não, desculpe” dei de ombros rindo. “Meu pai é militar” dei de ombros de novo. Ela apenas soltou um “ah” de decepção.
“É, aqui tem muitos filhos de militares” e eu realmente não duvidava. Mas é claro, algo como ela devia estar pensando, me tornava diferente dos outros. Porque bem, meu pai era diferente dos outros e não é do tipo de informação que estou autorizada a sair falando, até porque, nem eu sei da história toda, pro meu próprio bem e do país. É o que eles, o governo, e meu pai dizem.
“Qual o seu primeiro nome?” perguntei pra ela e ela pareceu bem surpresa. Eu vivi a minha vida toda em meio as formalidades, eu gostava do informal pra variar.
“Letícia” ela sorriu feliz.
“Certo Letícia e há quanto tempo você tem um caso com o diretor?” sei que fui direta demais, mas era algo que eu gostaria de saber e minha pergunta chocou ela mais do que qualquer outra coisa.
“Eu não... Eu não... Nós não... Por que você está perguntando isso?” ela decidiu responder por fim já que a frase do “eu não tenho um caso com ele” não funcionou. Se ela soubesse do meu dom, saberia que nenhuma outra frase funcionaria.
“Digamos que... Eu apenas seja muito perceptiva e saquei quando ele me falou pra ir até você” eu pisquei pra ela e suas bochechas ficaram rosadas.
“Como ele falou de mim?” seus olhos brilhavam tanto em satisfação e excitação que chegava a ser patético. Um patético bonitinho.
“De forma que definitivamente dá pra ver que ele sente algo por você e pelo visto, você por ele e não é algo... Por diversão, nem da sua parte e muito menos da dele” sorri feliz comigo mesma ao perceber a felicidade nos olhos dela. Ao menos algum bem minhas habilidades faziam a alguém.
“Desde antes de eu ter 18 anos. Mas... Ele é um homem direito. Esperou eu completar 18 anos antes de sequer me beijar. Antes dos meus 18, ele parecia mais um pai pra mim. Ainda mais que... Meu pai morreu quando eu tinha 12, então o Paulo, o diretor, foi como um pai pra mim. Logicamente eu me sentia muito atraída por ele, tentei beijá-lo diversas vezes, mas ele me disse que não podia, que deveríamos fazer as coisas do jeito certo. E isso seria esperar até eu ser maior de idade e ele realmente esperou” ela completou com felicidade. Ela estava mesmo falando a verdade, mesmo sendo difícil de acreditar um homem sendo tão digno assim.
“Vejo que sim, bom, sorte sua. Outra coisa, conhece todo mundo por aqui não? Sabe das últimas fofocas?” afinal, qualquer garota que se preze, bem sabe que deve estar sempre informada sobre tudo e todos e evitar surpresas desagradáveis.
“Hahahahaha. Sim, na verdade eu sei sobre tudo o que rola por aqui” ela piscou pra mim. “Mas não sei se seria certo te contar, muita coisa é informação privada” e eu pude notar sua vontade de compartilhar as informações.
“Minhas prediletas” eu sorri e pisquei pra ela.
Capítulo 01
A primeira coisa que uma pessoa via quando chegasse na entrada do CSP era uma linda fonte onde havia uma estátua de um anjo esculpida em mármore. A fonte ficava logo depois do portão de entrada e surpreendia a todos a que olhavam para ela, mesmo aqueles que já tinham ouvido falar.
Construída em 1954 como um presente do antigo dono da propriedade a sua mulher, um presente de casamento. Um anjo esculpido com sua face. Ao menos era isso o que dizia no folhetim que recebi da escola. Sim, eu li o folhetim.
Sei que isso não é o tipo de coisa que alunos fazem, mas eu queria reunir o máximo de informações possíveis antes de chegar na escola. Afinal de contas, eu iria entrar na escola durante o meio do ano, não era uma coisa boa de fazer.
Entrar na CSP é extremamente difícil, porque eles são extremamente seletivos com seus alunos E professores pelo o que eu ouvi. É quase como uma faculdade antecipada. É preciso uma prova pra entrar, além de ter um histórico escolar quase que impecável e ainda assim, é difícil, pois as vagas são para poucos.
Encarando os fatos eu só entrei por causa do meu pai. Ele é um agente militar condecorado várias vezes por serviços prestados ao país. Então sim, só mesmo alguém de tamanha importância pra conseguir uma vaga na CSP bem no meio do ano. Então como você já deve ter percebido, isso não acontece com freqüência na escola. Provavelmente será algo que todos já devem saber, toda a escola, que não é exatamente pequena.
“Senhorita Oliveira, aguarde aqui um instante, em poucos minutos o diretor irá atendê-la” disse um dos soldados que bajulavam o meu pai pra mim. Ele sorriu, mas eu não sorri de volta. Não tinha por quê.
“Tudo bem” respondi e vaguei meu olhar pelo lugar. Era certamente um lugar bonito. Ao menos até onde eu já tinha visto. Agora eu me encontrava fora do lado da sala do diretor, onde tinha uma recepcionista me encarando de forma bem chata. Era curiosidade e ao mesmo tempo... Medo?! Céus, fico pensando o tipo de boato que já espalharam.
O lugar não tinha muito pra olhar, o principal eram os quadros de arte na parede. Havia uns 3 ou 4 quadros que certamente despertaram a minha atenção. O primeiro era de uma mulher sentada em um degrau fora de uma casa com um tom sombrio e ela parecia estar triste, chorando, mas havia um sorriso discreto em seu rosto. O que me leva a pensar porque um artista pintaria tal desincronia. O segundo era de uma floresta onde as arvores não tinham folhas e havia uma mulher parecida com a do primeiro quadro, só que agora ela estava em um vestido preto em camadas e estava de costas. Era tão intrigante quanto o outro. O que ela estaria fazendo numa floresta assim, vestida assim, à noite?
E o terceiro, bem, o terceiro não era de uma mulher. Era uma garota. Uma criança. Meio parecida com a dos quadros anteriores, mas claramente não era a mesma pessoa. A dos dois outros quadros tinham olhos azuis brilhantes, a dessa criança eram castanhos e havia um brilho no olhar que a tornava especial. O restante do quadro era simples, um parquinho onde havia várias outras crianças brincando e sorrindo, mas esta em particular estava olhava pra quem estava olhando o quadro. Parecia quase que como uma fotografia de tão perfeito e preciso o quadro. E o quarto...
“Ah, senhor Sales, que bom que o senhor chegou. Está atrasado! O diretor quer falar com você e... O que aconteceu com suas vestes? É melhor se arrumar antes de ir falar com o diretor e principalmente, antes que um dos alunos veja você desse jeito” uma voz menina falou para algum cara que certamente tinha aparecido. Evitei virar de vez pra não parecer bisbilhoteira e resolvi que olhar de rabo era melhor.
E fiquei realmente surpresa com o que pude ver. Havia um cara em frente a tal recepcionista e meu deus, que cara! Não dava pra ver se ele era bonito, mas forte e músculo totalmente dava pra ver. Ao contrário dos homens que eu tinha visto por aqui, ele estava com a camisa pra fora da calça e a gravata apenas em volta do pescoço, sem nó algum. O cabelo estava todo desarrumado e a camisa parecia que ele tinha dormido com ela. Quando eu vi que ele me olhou, eu olhei rapidamente de volta para os quadros, tentando concluir minhas análises e ignorá-lo.
Logicamente que eu não consegui me concentrar na análise de novo. Eu estava querendo era dar mais uma espiadinha nele. Que tipo de problema será que ele tinha se metido pro diretor querer falar com ele? Não consegui imaginar nenhum aluno do CSP se metendo em problemas a ponto de ser levado para o diretor. Não eram todos alunos modelos?!
Quando resolvi ceder a tentação de olhar de novo para o tal cara misterioso eu percebi que não havia mais ninguém na recepção. Nem ele e nem a recepcionista. Onde será que tinham ido?
“Procurando-me?” uma voz masculina e forte falou ao meu lado e eu soltei um gritinho de susto. Ele apenas me olhou sorrindo. Era o tal cara e ele não era apenas bonito, ele era LINDO. Do tipo de cara que é modelo. Do tipo de cara que é ator. Do tipo de cara que está na capa das revistas e que nos faz suspirar e desejar ter. “Desculpe-me por tê-la assustado. Bonitos não?” ele falou indicando o queixo para os quadros. “Também adoro eles” e deu um suspiro estranho.
“São... Fascinantes e misteriosos, isso me atrai, eu acho” dei de ombros e ele apenas ficou me encarando.
“Uau. É a primeira pessoa que eu vejo dizendo que eles não são óbvios demais” ele riu de novo. Será que ele tinha pensado que eu havia falado alguma besteira pra rir assim? Eu sei que não falei. Tolas as pessoas que vêem isso como algo simples, não são nenhum pouco.
“Como alguém pode dizer isso? E são tão bem pintados... Quer dizer, olha isso” apontei pro vestido em camadas da mulher do segundo quadro. Ele apenas assentiu olhando deslumbrado e ao mesmo tempo... Triste?
“Você realmente tem um bom gosto garota” ele sorriu amistoso e então me estendeu a mão. “Enzo, Enzo Sales” e eu olhei pra mão dele e respondi apenas um “Olá Enzo, eu me chamo...” nem precisei responder porque alguém respondeu por mim.
“Catarina Oliveira! Que imenso prazer recebê-la” um velho gordo, barrigudo, de cabelos brancos, alto, bem vestido e bem, lindo, abriu os braços pra me receber. Era o diretor.
“Olá senhor. Muito obrigada por me receber aqui no CSP ainda mais em tais circunstâncias” disse minha fala ensaiada a qual meu pai me obrigou. “Sei que não deve ter sido fácil, agradeço muito” dei-lhe um sorriso falso, mas ao menos tentei aparentar sinceridade.
“Oh senhorita. Com notas como a sua, um histórico escolar como o seu, certamente não foi tão difícil assim não é mesmo? Definitivamente é do tipo de alunas como você que estamos precisando aqui no CSP” ele sorriu sinceramente. É, talvez eu goste dele. Durante todos esses anos acho que me acostumei tanto as falsidades que quase nem lembrava mais de um sorriso verdadeiro.
“Espero que eu renda bons frutos aqui, senhor” sorri e dessa vez mais sincera. Eu reparei no sorrisinho de deboche na cara do cara ao meu lado, do Enzo durante todo o diálogo com o diretor. Olhando agora, até que eles dois se pareciam um pouco. Quer dizer, o Enzo era tão alto quanto ele e ambos tinham os mesmos olhos azuis. Só que o Enzo era loiro, e o cara tinha já os seus cabelos brancos, e enquanto o Enzo tinha músculo, o cara gorduras.
“E com certeza renderá senhorita. Esta é a chave do seu quarto, peça para a senhorita Medeiros mostrá-la onde fica. Ela é a moça da recepção” ele completou sua fala e quando disse sobre a recepcionista, não pude deixar de notar que suas pupilas dilataram e um certo sorrisinho apareceu em seu rosto.
“Oh certo. Eu irei, senhor” e acenei para ele cumprimentando-o com a cabeça e então me virei para olhar pra o Enzo. Eu sorri e murmurei pra ele um “te vejo depois, boa sorte” e ele sorriu de volta, depois um leve tom de vermelho surgiu em suas bochechas e murmurou de volta um “obrigado”.
“Minha sala, Enzo” o diretor mudou seu tom de voz completamente pelo o que pude notar. Era frio e de certa forma parecia desprezo, mas nem tive muito tempo de pensar nisso, porque eu tinha a minha própria vida pra me preocupar do que com um garoto qualquer, mesmo um muito lindo. Certamente ele sabia se cuidar sozinho.
Quando eu cheguei na recepção a moça estava sentada lá mexendo no computador com uma cara séria. Parecia bem importante porque ela estava tentando se concentrar bastante. Mas ao mesmo tempo, era algo que ela estava gostando de fazer, não era daquele tipo de trabalho chato E difícil.
“Err... Senhorita Medeiros” eu a chamei e esperei. Ela demorou uns 5 segundos antes de olhar pra mim e ficou surpresa ao ver que era eu, eu achei.
“Pois não?” era engraçado ouvir esse “pois não” eu sempre achei. Não sei, sempre soou bem falso pra mim e uma forma de manter as pessoas bem distantes.
“O diretor falou para a senhorita me mostrar o meu quarto. Ele já me deu a chave” mostrei a chave pra ela e seus olhos indicavam surpresa.
“Novata e já tem um quarto exclusivo? Deve ser mesmo alguém importante” e levou as mãos aos lábios na mesma hora em que disse isso. Eu ri. Era sempre o gesto que crianças pequenas faziam quando contavam mentiras. Só que o dela nada teve a ver com mentiras e sim, excessiva sinceridade. É, talvez eu gostasse dela.
“Isso é raro por aqui? Ter seu próprio quarto?”
“Somente os professores tem seus próprios quartos. E ainda assim, nem todos eles o possuem. A maioria é compartilhado. Alunos... Não, nenhum deles tem quarto próprio” ela disse indicando com a cabeça a direção certa a seguir.
Era só questão de tempo até essa informação de quarto exclusivo vazar. E se bem conheço adolescentes, até vários deles começarem a querer ter esse mesmo privilégio o que me leva a pensar em qual justificativa o diretor dará. Será certamente muito interessante.
“Então... Quem é você?” ela me perguntou. O engraçado é que ela parecia pensar que eu tinha alguma coisa super interessante e empolgante, como alguma atriz famosa ou sei lá, algo do tipo, algo excitante. Mas acontece que... Não tem nada muito excitante sobre quem eu sou. Quer dizer, tirando o meu dom. Nada demais.
“Hum... Meu nome é Catarina Oliveira” falei mesmo já sabendo que não era isso o que ela queria saber. Provavelmente ela já sabia, já que ela trabalhava para o diretor.
“Eu sei seu nome. Não foi isso que eu perguntei. Quero dizer, me desculpe pelo tom informal, é que nessa escola é formalidades o tempo todo, e eu nem sou assim tão mais velha que você. E eu realmente estou curiosa. Estão dizendo todo tipo de coisa por aí. Inclusive que você é uma filha bastarda do presidente, isso é verdade?” a excitação na voz dela era mais do que clara. Eu apenas ri.
“Não, desculpe” dei de ombros rindo. “Meu pai é militar” dei de ombros de novo. Ela apenas soltou um “ah” de decepção.
“É, aqui tem muitos filhos de militares” e eu realmente não duvidava. Mas é claro, algo como ela devia estar pensando, me tornava diferente dos outros. Porque bem, meu pai era diferente dos outros e não é do tipo de informação que estou autorizada a sair falando, até porque, nem eu sei da história toda, pro meu próprio bem e do país. É o que eles, o governo, e meu pai dizem.
“Qual o seu primeiro nome?” perguntei pra ela e ela pareceu bem surpresa. Eu vivi a minha vida toda em meio as formalidades, eu gostava do informal pra variar.
“Letícia” ela sorriu feliz.
“Certo Letícia e há quanto tempo você tem um caso com o diretor?” sei que fui direta demais, mas era algo que eu gostaria de saber e minha pergunta chocou ela mais do que qualquer outra coisa.
“Eu não... Eu não... Nós não... Por que você está perguntando isso?” ela decidiu responder por fim já que a frase do “eu não tenho um caso com ele” não funcionou. Se ela soubesse do meu dom, saberia que nenhuma outra frase funcionaria.
“Digamos que... Eu apenas seja muito perceptiva e saquei quando ele me falou pra ir até você” eu pisquei pra ela e suas bochechas ficaram rosadas.
“Como ele falou de mim?” seus olhos brilhavam tanto em satisfação e excitação que chegava a ser patético. Um patético bonitinho.
“De forma que definitivamente dá pra ver que ele sente algo por você e pelo visto, você por ele e não é algo... Por diversão, nem da sua parte e muito menos da dele” sorri feliz comigo mesma ao perceber a felicidade nos olhos dela. Ao menos algum bem minhas habilidades faziam a alguém.
“Desde antes de eu ter 18 anos. Mas... Ele é um homem direito. Esperou eu completar 18 anos antes de sequer me beijar. Antes dos meus 18, ele parecia mais um pai pra mim. Ainda mais que... Meu pai morreu quando eu tinha 12, então o Paulo, o diretor, foi como um pai pra mim. Logicamente eu me sentia muito atraída por ele, tentei beijá-lo diversas vezes, mas ele me disse que não podia, que deveríamos fazer as coisas do jeito certo. E isso seria esperar até eu ser maior de idade e ele realmente esperou” ela completou com felicidade. Ela estava mesmo falando a verdade, mesmo sendo difícil de acreditar um homem sendo tão digno assim.
“Vejo que sim, bom, sorte sua. Outra coisa, conhece todo mundo por aqui não? Sabe das últimas fofocas?” afinal, qualquer garota que se preze, bem sabe que deve estar sempre informada sobre tudo e todos e evitar surpresas desagradáveis.
“Hahahahaha. Sim, na verdade eu sei sobre tudo o que rola por aqui” ela piscou pra mim. “Mas não sei se seria certo te contar, muita coisa é informação privada” e eu pude notar sua vontade de compartilhar as informações.
“Minhas prediletas” eu sorri e pisquei pra ela.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
TROCADA
Ai. Meu. Deus. Eu acho que morri. Não... Eu morri. Ai. Meu. Deus. Ai. Meu. Deus. Eu simplesmente não consigo parar de pensar isso porque é a única coisa na qual estou conseguindo pensar. Sabe quando você ouve ou então vê alguma coisa totalmente inesperada? Pois é, foi o que ACABOU de acontecer comigo. Velho, não, não pode ser verdade. Isso simplesmente não pode estar acontecendo. Quer dizer, como isso pode ter acontecido tão embaixo do meu olho? Não! Eu não pude ser tão cega assim, eu não sou, não é possível e DUAS vezes! Não, não e não.
“Respira Bia, respira” ouço a voz da minha melhor amiga, Luciana ao meu lado. Ela estava comigo quando eu descobri. E... Se não fosse por ela talvez eu não tivesse saído de lá e evitado ser flagrada flagrando a cena. A cena. Ai. Meu. Deus. O pior é que eu não consigo nem organizar meus pensamentos pra pensar com clareza, porque eu praticamente não estou pensando.
“Eu... Tenho certeza que não é o que parece. Não pode ser” ela diz com uma risadinha nervosa. Ela também viu e logicamente que ela sabe que É o que parece ser, ela só não quer que eu fique mal por isso.
“Bia? Ai caramba, o que teve? Que cara é essa menina? Parece que viu um fantas...” a Heide disse, mas foi interrompida por uma outra garota que chegou na mesma hora. Só que não era qualquer garota, e sim a namorada do David.
“Oi Marina” a Luciana falou torcendo a cara, ela totalmente não gosta da Marina. E pra dizer a verdade, nem eu. Nunca gostei dela. Oh menininha esnobe e enjoada, além de ser falsa! Eu sinceramente não sei o que ela faz com um cara como o David.
“Oi” a Marina respondeu de cara fechada também percebendo que a Heide não estava sozinha. “Depois eu falo com você, Heide. Assim que puder, é meio urgente” ela disse virando pra me olhar mais uma vez com certo desprezo e foi embora.
“Nossa... Essa garota realmente não gosta de você hein?” a Heide falou rindo. Ela era meio amiguinha da Marina. O que eu também não entendo.
“Por que será?” a Luh falou nos fazendo rir e isso foi bom porque eu relaxei mais.
“É... Nunca fiz nada a ela!” falei rindo ainda. O que não deixa de ser uma meia verdade.
“É mesmo, com ela não, fez com o namorado dela” a Luh respondeu de novo nos fazendo rir ainda mais enquanto a Heide balançava a cabeça dizendo “vocês não prestam”.
“Sim vei, qual é o B.O?” a Heide falou olhando pra Luh esperando uma resposta dela. O que eu achei melhor que ela explicasse.
“Se eu te contar... Menina, você não acredita!” a Luh adora um suspense. Não a culpo, como não fazer? Mas rapaz, é um enorme babado esse! Fico imaginando o que aconteceria se essa informação caísse nas mãos erradas...
“Conta LOGO PORRA!” a Heide disse com toda sua sutilidade. “VAI, não me mata de curiosidade. O que aconteceu hein, cacete?” é, totalmente a Luh conseguiu atiçar a curiosidade da Heide, imagine quando ela não descobrir o que foi. Vai cair pra trás. Ai. Meu. Deus. Eu totalmente não queria ter visto aquilo.
“Sabe o Victor?” a Luh deu uma risadinha ao falar o nome dele e eu confesso que também dei, mas uma risada diferente da dela. A minha era de nervoso e a dela de deboche.
“Ex da Bia? O que que tem ele?” ela perguntou olhando pra a gente totalmente apreensiva. “Ai caramba, ele traiu a tal da Malena namoradinha dele?” ela cobriu a boca com as mãos.
“Sim... Mas não do jeito que você pensa” a Luh deu mais uma vez a risadinha de deboche.
“Você ficou com ele, Bia? Porque se ficou, céus, eu acho que te mato vei! Nâo, eu sei que você ainda sente algo por ele, ama ele, ou gosta, ou só quer pegar, eu sei lá, mas vei, ele tá namorando! Quer dizer, tá, você pegou o David, mas é diferente! Você não gostava do David, do Víctor você gosta, eu acho” e em partes ela está certa. Tirando a parte sobre eu estar apaixonada pelo David, eu estou, ela que não sabe.
“Não fiquei com o Víctor” falei emburrada e fingindo estar ofendida. Eu sou o que? Sei me controlar, menos com o David, mas aí o caso é diferente! Porque ele me seduz demais, não que o Víctor não seduza... Mas ah, acho que vocês entenderam!
“Ah que otimo! Bom pra você, mesmo!” e ela voltou a olhar pra Luh que tinha amarrado a cara porque tinha sido interrompida e ela odeia isso.
“O Víctor... bem, não sei como falar isso vei. O David... Ai meu deus que coisa dificil” eu falei tentando contar e não consegui. Falar isso em voz alta tornaria isso tudo ainda mais real.
“O que que tem eles? Gente, pára, vocês estão me assustando pow” e parecia que estavamos mesmo. Ela nos olhava com total receio.
“Tá, cansei da enrolação. Nós, eu e a Bia, vimos o Víctor e o David se beijando!” a Luh falou abaixando a voz quando chegou nos nomes deles.
“O QUÊ?!?!” a Heide perguntou engasgando o que me fez sorrir de nervoso. Ai meu santinho e eu fiquei com eles dois! Com OS DOIS! E um foi meu namorado, ai meu deus, eu peguei dois viados! Tipo, eu não deveria ter ficado com o David, porque ele tem namorada e tudo o mais, é amigo do meu ex-namorado e tudo o mais, mas acontece que eu não poderia deixar ele passar, porque eu sempre quis ficar com ele e ele exerce um incrível poder de atração em mim! É INCRÍVEL! E não me arrependo de ter ficado com ele, mas... Vei! Como assim eles ficaram?!
“COMO ASSIM ELES FICARAM?!” a Heide repete os meus pensamentos. Como eu disse antes, ai. Meu. Deus. Tipo, pense em algo totalmente NÃO ESPERADO? Quer dizer, os dois são totalmente o que você chamaria de “macho”. O David é alto, um e oitenta, por aí, tem o cabelo todo cacheadinho, os olhos verdes e apesar de ser magro, tem o corpo todo definido. Já o Víctor, ele é alto também, só que mais baixo que o David, é moreno, bem moreno mesmo, bronzeado, tem o cabelo curtinho e é malhado de academia. Enfim, pense em uma coisa ESQUISITA, foi ver eles dois... errr... Não consigo nem terminar a frase, meu deus!
“Ficaram, se beijaram uai! Na boca! E foi de lingua! De onde estávamos dava pra ver que tipo, ver não, ouvir o barulho deles se beijando. Foi lá no ginásio da escola. A aula de ed.fisica acabou e você sabe que a Bia e o David tem usado lá pra ficarem né? Então... Aí a Bia me pediu pra acompanhar pra eu poder vigiar caso alguém aparecesse e avisá-los para eles não serem flagrados e aí, quando ela entra no vestiário deles, está os dois se beijando e o Víctor apertando o David contra ele. Céus, que nojo! Que nojo! E QUE DESPERDÍCIO!” a Luh balançou a cabeça ainda incredula. A minha incredulidade era tanto que nem falar direito eu conseguia. A Heide olhou pra mim e deu um sorriso amigável.
“Uau, quer dizer, uau. O David tem uma namorada, uma amante e ainda por cima fica com um dos amigos dele? Vei, isso é tão... Sei lá, esse menino não se satisfaz fácil né vei? Credo velho, credo” a Heide balançou a cabeça ainda me estudando pra variar. Ela na verdade me olhava como se eu fosse explodir a qualquer momento.
“E como você está se sentindo, Bia? Aff, deixa pra lá, que pergunta idiota, claro que você não está bem e sua cara está... assustadora” e eu não duvido que estivesse mesmo. Eu estava me sentindo totalmente abalada. Eu não conseguia falar, mas também quando comecei não parei mais e falei tudo de vez.
“VEI, ELES DOIS TEM NAMORADAS! OS DOIS! E EU TAVA FICANDO COM O DAVID PORRA, COMO É QUE ELE TEM A CARA DE PAU DE FICAR COM O VÍCTOR? COMO? PRIMEIRO COMIGO E DEPOIS COM O VÍCTOR? ELES NAMORANDO? NÃO VEI, NÃO DÁ, GAYS? ELES SÃO GAYS? VOCÊS SABEM QUE EU NÃO TENHO PRECONCEITO ALGUM, MAS PORRA, NÃO QUERO MACHO MEU GOSTANDO DE UMA PICA, QUE PORRA VELHO, QUE PORRA... POR QUE ESSAS COISAS SÓ ACONTECEM COMIGO? POR QUE VEI? POR QUE, QUE DROGA! NUNCA NA VIDA IMAGINEI PASSAR POR UMA PORRA DE SITUAÇÃO FUDIDA DESSA!” completei e senti lágrimas vindo aos meus olhos. Oh droga!
“Calma Bia...” a Heide falou segurando a minha mão e eu apenas suspirei mais fundo. Sorte nossa que não tinha ninguém por perto.
“É Bia, eu sei, tá, eu não sei, mas imagino que seja dificil isso, muito dificil, mas vei, pense assim... Talvez eles não sejam gays, ou bis, só... sei lá, pode ter sido um acidente!” é realmente admirável o que as amigas dizem na hora de consolar você, realmente.
“Luh, ninguém encoxa alguém por acidente e muito menos enfia a lingua na garganta de alguém por acidente, tipo... NÃO MESMO!” falei começando a realmente chorar agora. Poxa velho, eu não merecia isso. Não!
“O pior... É que eu gosto dos dois! Tá, eu amo o Víctor, mas eu gosto do David também vei, e não, to nem aí pras namoradas deles, não tenho ciumes delas, não tenho problemas com elas, mas eles dois juntos? É demais pra mim, aí é demais! DEMAIS MESMO!” eu balancei a cabeça em negação me negando a acreditar naquilo. Não quero nem narrar a cena porque eu estou tentando esquecer aquela cena deplorável.
Como se a situação não pudesse ficar pior do que já estava, o David e o Víctor aparecem juntos andando de mãos dadas e rindo conversando alegremente, mas ao menos não tinha nenhuma expressão de “eu te quero” ou “eu gosto de você”, ou seja, nenhuma expressão gay no rosto. E ao me ver chorando eles param e eu tento limpar rápido as minhas lágrimas e fingir que não tinha visto eles, mas tudo foi em vão porque o David puxa o Víctor pra onde eu, a Heide e a Luh estavamos e o Víctor não queria vir, dava pra ver. Depois que terminamos eu e ele não nos falamos muito bem.
“Bia...? O que teve?” o Víctor perguntou me olhando e quando ele fez isso sua testa ficou enrrugada de preocupação o que eu achei super fofo e não esperava dele.
“Nada” falei rápido e mentindo e desviando o rosto deles. Quando eu olhei pro David eu vi que ele me olhava meio sem saber o que fazer. Eu não consegui evitar de olhar para a mão deles dois entrelaçadas e só o David percebeu meu olhar e soltou a mão do Víctor como se de repente ela tivesse pegando fogo e corou levemente. O Víctor como sempre não percebeu o que estava acontecendo e ficou com a usual cara de interrogação dele.
O pior de tudo, foi o um minuto de silêncio constrangedor que ficou entre nós cinco até a Luh piorar a situação arrastando a Heidi dizendo que me veria mais tarde, que estava me esperando lá no corredor.
“Oi David” falei olhando pra ele, bem nos olhos dele e pude ver que ele ainda sentia desejo de ficar comigo, porque só por um acaso ele estava olhando pra a minha boca.
“Oi” monossilábico como sempre. É, eu não esperava que ele dissesse mais que isso. E como também o Víctor não é lá de falar muito, sobrou pra eu arranjar algo pra falar, mas surpreendentemente antes que eu pudesse abrir a minha boca, o Víctor falou.
“O que aconteceu com você? Nem diga que não é nada, eu conheço você” e bem nessa hora o David olhou pra ele e meio que fechou a cara e cruzou os braços. Ciumes? Haha, só o que me faltava.
“Nada, só... Eu vi” eu me consertei bem rápido antes que ele pudesse notar e associar a eles dois. “Ouvi na verdade, que o cara que eu gostava ficou com... alguém” eu disse olhando discretamente para o David que estava totalmente desconfortável com a situação. Ele olhou pra baixo e depois coçou o cabelo. Devia tá se chingando mentalmente por ter trazido o Víctor até aqui.
“Sério? Nossa, que mal pra você” o Víctor respondeu com um sorrisinho idiota na cara. Foi por pouco que eu não pulei no pescoço dele pra arrancar aquele sorriso. Lógico que ele ficaria feliz por me ver mal, sofrendo, otário.
“Pois é, mas tô bem. Afinal, é o cara que está perdendo e não eu. Você bem sabe” olhei bem no fundo dos olhos para o Víctor e ele fechou a cara pra mim e depois olhei para o David que estava com uma expressão de medo e de confusão ao mesmo tempo.
“Mas ele não tinha namorada, o tal cara?” o Víctor perguntou confuso. “Ele ficou com outra então? Traiu ela?” o mais engraçado é que o Víctor não consegue enxergar um palmo a frente dele. O que estava praticamente estampado na cara dele ele não via. Já o David me olhava surpreso e alarmado como quem dizia “você contou isso para ele? Você é doida? É perigoso!” e eu dei de ombros sutilmente.
Eu na verdade estava mais interessada na conversa silenciosa que estava tendo com o David do que na que eu estava tendo com o Víctor. “Sim, ele traiu ela. É, eu acho que ele deve ser insaciável” falei fechando a cara mostrando bem o quanto eu estava chateada. O que foi engraçado foi o sorrisinho de lado sacana e pevertido que o David me lançou, e aí ele ficou levantando a sobrancelha, o que é claro, o Víctor que tava do lado dele e virado pra mim de frente, não viu.
“Insaciável? É, talvez você combine mesmo com ele então, né David?” ele virou pra o David que olhou pra ele espantado dizendo por reflexo “O quê? Ah sim, é, eles devem combinar então...” e sorriu felizinho concordando o que me deixou ainda mais confusa. Porra, qual é a dele?
“Mas eu fico me perguntando Víctor, por que ele ficaria com outra pessoa velho? Qual necessidade? Não estava satisfeito com a namorada então? Nem com outra...?” aí eu parei me interrompendo antes que eu me entregasse pro Víctor que eu tinha ficado com David e ele é claro, não sabia. Que eu tinha ficado com o David, ou com o cara (que eu não contei pro Víctor quem era).
“Não sei, ele não parece que presta pra mim, se traiu a namorada assim. Melhor né Bia? Não seria legal você se envolver com um cara desse, ele totalmente não presta, dá pra ver” e então eu comecei a rir descontroladamente quando vi a expressão complexada no rosto do David. “O que acha, David?” o Víctor perguntou pra ele e o David fez uma rápida expressão de pânico, mas passou bem rápido.
“Eu não acho nada. A Bia que deve saber o que ela quer e se ela realmente quer deixar pra lá um cara que ela gosta só porque ele não consegue se controlar as vezes e é um pouquinho insaciável, mas como você disse, talvez seja por isso que eles combinem” ele falou e depois piscou pra mim e eu apenas fiquei olhando pra ele sem acreditar na cara de pau.
É claro que, o Víctor, inocente no mundo, não percebeu a minha conversa silenciosa com o David e nem era pra perceber mesmo. E bem, de forma camuflada o David respondeu a minha pergunta, me disse o porque ele tinha feito isso e mesmo estando chateada eu vi que não era nada demais. Ele não olhava pro Víctor como me olhava, ainda bem. Ele olhava pro Víctor de forma normal e agia de forma normal o que me fez perguntar se o que eu vi foi realmente eles ficando...
“E provavelmente, essa outra pessoa que ele ficou, não significou nada” ele falou depois de um tempo e me fez sorri. Ele também sorriu pra mim com AQUELE sorriso pelo qual eu me apaixonei. Quando eu olhei para o Víctor ele estava com aquele olhar dele de “eu te amo” pelo qual eu me apaixono toda vez que vejo. E quando eu olhei ele desviou rápido... É, talvez eu tenha visto errado, só sei que, céus, eu realmente sou gamadinha nesses dois! Resta agora saber o que fazer com esse triângulo amoroso completamente... Imprevisível!
“Respira Bia, respira” ouço a voz da minha melhor amiga, Luciana ao meu lado. Ela estava comigo quando eu descobri. E... Se não fosse por ela talvez eu não tivesse saído de lá e evitado ser flagrada flagrando a cena. A cena. Ai. Meu. Deus. O pior é que eu não consigo nem organizar meus pensamentos pra pensar com clareza, porque eu praticamente não estou pensando.
“Eu... Tenho certeza que não é o que parece. Não pode ser” ela diz com uma risadinha nervosa. Ela também viu e logicamente que ela sabe que É o que parece ser, ela só não quer que eu fique mal por isso.
“Bia? Ai caramba, o que teve? Que cara é essa menina? Parece que viu um fantas...” a Heide disse, mas foi interrompida por uma outra garota que chegou na mesma hora. Só que não era qualquer garota, e sim a namorada do David.
“Oi Marina” a Luciana falou torcendo a cara, ela totalmente não gosta da Marina. E pra dizer a verdade, nem eu. Nunca gostei dela. Oh menininha esnobe e enjoada, além de ser falsa! Eu sinceramente não sei o que ela faz com um cara como o David.
“Oi” a Marina respondeu de cara fechada também percebendo que a Heide não estava sozinha. “Depois eu falo com você, Heide. Assim que puder, é meio urgente” ela disse virando pra me olhar mais uma vez com certo desprezo e foi embora.
“Nossa... Essa garota realmente não gosta de você hein?” a Heide falou rindo. Ela era meio amiguinha da Marina. O que eu também não entendo.
“Por que será?” a Luh falou nos fazendo rir e isso foi bom porque eu relaxei mais.
“É... Nunca fiz nada a ela!” falei rindo ainda. O que não deixa de ser uma meia verdade.
“É mesmo, com ela não, fez com o namorado dela” a Luh respondeu de novo nos fazendo rir ainda mais enquanto a Heide balançava a cabeça dizendo “vocês não prestam”.
“Sim vei, qual é o B.O?” a Heide falou olhando pra Luh esperando uma resposta dela. O que eu achei melhor que ela explicasse.
“Se eu te contar... Menina, você não acredita!” a Luh adora um suspense. Não a culpo, como não fazer? Mas rapaz, é um enorme babado esse! Fico imaginando o que aconteceria se essa informação caísse nas mãos erradas...
“Conta LOGO PORRA!” a Heide disse com toda sua sutilidade. “VAI, não me mata de curiosidade. O que aconteceu hein, cacete?” é, totalmente a Luh conseguiu atiçar a curiosidade da Heide, imagine quando ela não descobrir o que foi. Vai cair pra trás. Ai. Meu. Deus. Eu totalmente não queria ter visto aquilo.
“Sabe o Victor?” a Luh deu uma risadinha ao falar o nome dele e eu confesso que também dei, mas uma risada diferente da dela. A minha era de nervoso e a dela de deboche.
“Ex da Bia? O que que tem ele?” ela perguntou olhando pra a gente totalmente apreensiva. “Ai caramba, ele traiu a tal da Malena namoradinha dele?” ela cobriu a boca com as mãos.
“Sim... Mas não do jeito que você pensa” a Luh deu mais uma vez a risadinha de deboche.
“Você ficou com ele, Bia? Porque se ficou, céus, eu acho que te mato vei! Nâo, eu sei que você ainda sente algo por ele, ama ele, ou gosta, ou só quer pegar, eu sei lá, mas vei, ele tá namorando! Quer dizer, tá, você pegou o David, mas é diferente! Você não gostava do David, do Víctor você gosta, eu acho” e em partes ela está certa. Tirando a parte sobre eu estar apaixonada pelo David, eu estou, ela que não sabe.
“Não fiquei com o Víctor” falei emburrada e fingindo estar ofendida. Eu sou o que? Sei me controlar, menos com o David, mas aí o caso é diferente! Porque ele me seduz demais, não que o Víctor não seduza... Mas ah, acho que vocês entenderam!
“Ah que otimo! Bom pra você, mesmo!” e ela voltou a olhar pra Luh que tinha amarrado a cara porque tinha sido interrompida e ela odeia isso.
“O Víctor... bem, não sei como falar isso vei. O David... Ai meu deus que coisa dificil” eu falei tentando contar e não consegui. Falar isso em voz alta tornaria isso tudo ainda mais real.
“O que que tem eles? Gente, pára, vocês estão me assustando pow” e parecia que estavamos mesmo. Ela nos olhava com total receio.
“Tá, cansei da enrolação. Nós, eu e a Bia, vimos o Víctor e o David se beijando!” a Luh falou abaixando a voz quando chegou nos nomes deles.
“O QUÊ?!?!” a Heide perguntou engasgando o que me fez sorrir de nervoso. Ai meu santinho e eu fiquei com eles dois! Com OS DOIS! E um foi meu namorado, ai meu deus, eu peguei dois viados! Tipo, eu não deveria ter ficado com o David, porque ele tem namorada e tudo o mais, é amigo do meu ex-namorado e tudo o mais, mas acontece que eu não poderia deixar ele passar, porque eu sempre quis ficar com ele e ele exerce um incrível poder de atração em mim! É INCRÍVEL! E não me arrependo de ter ficado com ele, mas... Vei! Como assim eles ficaram?!
“COMO ASSIM ELES FICARAM?!” a Heide repete os meus pensamentos. Como eu disse antes, ai. Meu. Deus. Tipo, pense em algo totalmente NÃO ESPERADO? Quer dizer, os dois são totalmente o que você chamaria de “macho”. O David é alto, um e oitenta, por aí, tem o cabelo todo cacheadinho, os olhos verdes e apesar de ser magro, tem o corpo todo definido. Já o Víctor, ele é alto também, só que mais baixo que o David, é moreno, bem moreno mesmo, bronzeado, tem o cabelo curtinho e é malhado de academia. Enfim, pense em uma coisa ESQUISITA, foi ver eles dois... errr... Não consigo nem terminar a frase, meu deus!
“Ficaram, se beijaram uai! Na boca! E foi de lingua! De onde estávamos dava pra ver que tipo, ver não, ouvir o barulho deles se beijando. Foi lá no ginásio da escola. A aula de ed.fisica acabou e você sabe que a Bia e o David tem usado lá pra ficarem né? Então... Aí a Bia me pediu pra acompanhar pra eu poder vigiar caso alguém aparecesse e avisá-los para eles não serem flagrados e aí, quando ela entra no vestiário deles, está os dois se beijando e o Víctor apertando o David contra ele. Céus, que nojo! Que nojo! E QUE DESPERDÍCIO!” a Luh balançou a cabeça ainda incredula. A minha incredulidade era tanto que nem falar direito eu conseguia. A Heide olhou pra mim e deu um sorriso amigável.
“Uau, quer dizer, uau. O David tem uma namorada, uma amante e ainda por cima fica com um dos amigos dele? Vei, isso é tão... Sei lá, esse menino não se satisfaz fácil né vei? Credo velho, credo” a Heide balançou a cabeça ainda me estudando pra variar. Ela na verdade me olhava como se eu fosse explodir a qualquer momento.
“E como você está se sentindo, Bia? Aff, deixa pra lá, que pergunta idiota, claro que você não está bem e sua cara está... assustadora” e eu não duvido que estivesse mesmo. Eu estava me sentindo totalmente abalada. Eu não conseguia falar, mas também quando comecei não parei mais e falei tudo de vez.
“VEI, ELES DOIS TEM NAMORADAS! OS DOIS! E EU TAVA FICANDO COM O DAVID PORRA, COMO É QUE ELE TEM A CARA DE PAU DE FICAR COM O VÍCTOR? COMO? PRIMEIRO COMIGO E DEPOIS COM O VÍCTOR? ELES NAMORANDO? NÃO VEI, NÃO DÁ, GAYS? ELES SÃO GAYS? VOCÊS SABEM QUE EU NÃO TENHO PRECONCEITO ALGUM, MAS PORRA, NÃO QUERO MACHO MEU GOSTANDO DE UMA PICA, QUE PORRA VELHO, QUE PORRA... POR QUE ESSAS COISAS SÓ ACONTECEM COMIGO? POR QUE VEI? POR QUE, QUE DROGA! NUNCA NA VIDA IMAGINEI PASSAR POR UMA PORRA DE SITUAÇÃO FUDIDA DESSA!” completei e senti lágrimas vindo aos meus olhos. Oh droga!
“Calma Bia...” a Heide falou segurando a minha mão e eu apenas suspirei mais fundo. Sorte nossa que não tinha ninguém por perto.
“É Bia, eu sei, tá, eu não sei, mas imagino que seja dificil isso, muito dificil, mas vei, pense assim... Talvez eles não sejam gays, ou bis, só... sei lá, pode ter sido um acidente!” é realmente admirável o que as amigas dizem na hora de consolar você, realmente.
“Luh, ninguém encoxa alguém por acidente e muito menos enfia a lingua na garganta de alguém por acidente, tipo... NÃO MESMO!” falei começando a realmente chorar agora. Poxa velho, eu não merecia isso. Não!
“O pior... É que eu gosto dos dois! Tá, eu amo o Víctor, mas eu gosto do David também vei, e não, to nem aí pras namoradas deles, não tenho ciumes delas, não tenho problemas com elas, mas eles dois juntos? É demais pra mim, aí é demais! DEMAIS MESMO!” eu balancei a cabeça em negação me negando a acreditar naquilo. Não quero nem narrar a cena porque eu estou tentando esquecer aquela cena deplorável.
Como se a situação não pudesse ficar pior do que já estava, o David e o Víctor aparecem juntos andando de mãos dadas e rindo conversando alegremente, mas ao menos não tinha nenhuma expressão de “eu te quero” ou “eu gosto de você”, ou seja, nenhuma expressão gay no rosto. E ao me ver chorando eles param e eu tento limpar rápido as minhas lágrimas e fingir que não tinha visto eles, mas tudo foi em vão porque o David puxa o Víctor pra onde eu, a Heide e a Luh estavamos e o Víctor não queria vir, dava pra ver. Depois que terminamos eu e ele não nos falamos muito bem.
“Bia...? O que teve?” o Víctor perguntou me olhando e quando ele fez isso sua testa ficou enrrugada de preocupação o que eu achei super fofo e não esperava dele.
“Nada” falei rápido e mentindo e desviando o rosto deles. Quando eu olhei pro David eu vi que ele me olhava meio sem saber o que fazer. Eu não consegui evitar de olhar para a mão deles dois entrelaçadas e só o David percebeu meu olhar e soltou a mão do Víctor como se de repente ela tivesse pegando fogo e corou levemente. O Víctor como sempre não percebeu o que estava acontecendo e ficou com a usual cara de interrogação dele.
O pior de tudo, foi o um minuto de silêncio constrangedor que ficou entre nós cinco até a Luh piorar a situação arrastando a Heidi dizendo que me veria mais tarde, que estava me esperando lá no corredor.
“Oi David” falei olhando pra ele, bem nos olhos dele e pude ver que ele ainda sentia desejo de ficar comigo, porque só por um acaso ele estava olhando pra a minha boca.
“Oi” monossilábico como sempre. É, eu não esperava que ele dissesse mais que isso. E como também o Víctor não é lá de falar muito, sobrou pra eu arranjar algo pra falar, mas surpreendentemente antes que eu pudesse abrir a minha boca, o Víctor falou.
“O que aconteceu com você? Nem diga que não é nada, eu conheço você” e bem nessa hora o David olhou pra ele e meio que fechou a cara e cruzou os braços. Ciumes? Haha, só o que me faltava.
“Nada, só... Eu vi” eu me consertei bem rápido antes que ele pudesse notar e associar a eles dois. “Ouvi na verdade, que o cara que eu gostava ficou com... alguém” eu disse olhando discretamente para o David que estava totalmente desconfortável com a situação. Ele olhou pra baixo e depois coçou o cabelo. Devia tá se chingando mentalmente por ter trazido o Víctor até aqui.
“Sério? Nossa, que mal pra você” o Víctor respondeu com um sorrisinho idiota na cara. Foi por pouco que eu não pulei no pescoço dele pra arrancar aquele sorriso. Lógico que ele ficaria feliz por me ver mal, sofrendo, otário.
“Pois é, mas tô bem. Afinal, é o cara que está perdendo e não eu. Você bem sabe” olhei bem no fundo dos olhos para o Víctor e ele fechou a cara pra mim e depois olhei para o David que estava com uma expressão de medo e de confusão ao mesmo tempo.
“Mas ele não tinha namorada, o tal cara?” o Víctor perguntou confuso. “Ele ficou com outra então? Traiu ela?” o mais engraçado é que o Víctor não consegue enxergar um palmo a frente dele. O que estava praticamente estampado na cara dele ele não via. Já o David me olhava surpreso e alarmado como quem dizia “você contou isso para ele? Você é doida? É perigoso!” e eu dei de ombros sutilmente.
Eu na verdade estava mais interessada na conversa silenciosa que estava tendo com o David do que na que eu estava tendo com o Víctor. “Sim, ele traiu ela. É, eu acho que ele deve ser insaciável” falei fechando a cara mostrando bem o quanto eu estava chateada. O que foi engraçado foi o sorrisinho de lado sacana e pevertido que o David me lançou, e aí ele ficou levantando a sobrancelha, o que é claro, o Víctor que tava do lado dele e virado pra mim de frente, não viu.
“Insaciável? É, talvez você combine mesmo com ele então, né David?” ele virou pra o David que olhou pra ele espantado dizendo por reflexo “O quê? Ah sim, é, eles devem combinar então...” e sorriu felizinho concordando o que me deixou ainda mais confusa. Porra, qual é a dele?
“Mas eu fico me perguntando Víctor, por que ele ficaria com outra pessoa velho? Qual necessidade? Não estava satisfeito com a namorada então? Nem com outra...?” aí eu parei me interrompendo antes que eu me entregasse pro Víctor que eu tinha ficado com David e ele é claro, não sabia. Que eu tinha ficado com o David, ou com o cara (que eu não contei pro Víctor quem era).
“Não sei, ele não parece que presta pra mim, se traiu a namorada assim. Melhor né Bia? Não seria legal você se envolver com um cara desse, ele totalmente não presta, dá pra ver” e então eu comecei a rir descontroladamente quando vi a expressão complexada no rosto do David. “O que acha, David?” o Víctor perguntou pra ele e o David fez uma rápida expressão de pânico, mas passou bem rápido.
“Eu não acho nada. A Bia que deve saber o que ela quer e se ela realmente quer deixar pra lá um cara que ela gosta só porque ele não consegue se controlar as vezes e é um pouquinho insaciável, mas como você disse, talvez seja por isso que eles combinem” ele falou e depois piscou pra mim e eu apenas fiquei olhando pra ele sem acreditar na cara de pau.
É claro que, o Víctor, inocente no mundo, não percebeu a minha conversa silenciosa com o David e nem era pra perceber mesmo. E bem, de forma camuflada o David respondeu a minha pergunta, me disse o porque ele tinha feito isso e mesmo estando chateada eu vi que não era nada demais. Ele não olhava pro Víctor como me olhava, ainda bem. Ele olhava pro Víctor de forma normal e agia de forma normal o que me fez perguntar se o que eu vi foi realmente eles ficando...
“E provavelmente, essa outra pessoa que ele ficou, não significou nada” ele falou depois de um tempo e me fez sorri. Ele também sorriu pra mim com AQUELE sorriso pelo qual eu me apaixonei. Quando eu olhei para o Víctor ele estava com aquele olhar dele de “eu te amo” pelo qual eu me apaixono toda vez que vejo. E quando eu olhei ele desviou rápido... É, talvez eu tenha visto errado, só sei que, céus, eu realmente sou gamadinha nesses dois! Resta agora saber o que fazer com esse triângulo amoroso completamente... Imprevisível!
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O sonho
O dia hoje foi extremamente cansativo. Eu não via a hora de chegar em casa, deitar na minha cama e dormir. Foi exatamente o que eu fiz. Porém, eu não consegui pegar no sono tão rapidamente.
“Ellen!” uma voz conhecida me chamou. Era o Dan.
“Oi Dan! O que faz aqui?”. Quando ele havia chegado que eu não vi? O Dan estava do meu lado. Ele estava usando a roupa do dia em que nos conhecemos. Ele estendeu a mão para mim. Não sei o porquê mais o meu sexto sentido estava me avisando que eu deveria fugir, correr o mais longe que eu pudesse dele, que não era seguro.
Sensação bastante estranha já que quando estou com o Dan é quando estou mais segura. Como demorei de pegar na sua mão, ele mesmo veio até mim e a pegou colocando em cima do seu coração e olhou para mim.
Quando olhei em seus olhos fui tomada por um choque de surpresa! Os olhos dele não estavam gentis como sempre e muito menos azuis. Seus olhos eram agora de um vermelho intenso cor-de-sangue.
Afastei-me dele para poder olhá-lo melhor. Quando olhei ao meu redor eu não estava mais no meu quarto, estava num lugar desconhecido. Tudo parecia estar em chamas. O fogo tão vermelho, tão quente quanto o olhar dele. Olhei-o de novo e vi que não era mais o Dan. Era um estranho. As chamas estavam tão intensas que eu não conseguia mais enxergar direito. O estranho estava entre as chamas e me olhava, tudo o que eu podia reparar era naqueles olhos vermelhos.
As chamas estavam chegando ao local onde eu estava e a dor de ser queimada me atingiu. O estranho que estava parado e imóvel até então, sorriu em deleite pela minha agonia. Desespero me atingiu. Não! Eu não poderia morrer. A dor foi se intensificando e comecei a chorar de desespero. Não posso morrer, não posso morrer. Não!
Levantei assustada e percebi que só tinha sido um sonho. Eu estava bem e segura em minha casa. Mas para o meu desespero eu vi que lágrimas estavam encharcando meus olhos embaçando minha visão. Senti uma pontada em minha mão e vi que tinha uma queimadura nela! Tudo tinha sido real então? Não podia ser. Mas as marcas em minha mão apontavam que o sonho teria sido real. Fiquei muito assustada. Fiz a primeira coisa que veio na minha cabeça. Ligar para o Dan! Eu sei que era bastante tarde, mas ele não necessita dormir e me disse que eu poderia ligar para ele a qualquer hora.
“Alô?” ele falou do outro lado da linha. Não parecia que eu o havia acordado.
“Oi Dan! É a Ellen!” respondi ainda chorando e fungando um pouco.
“Oi minha menina. Algum problema? Você está chorando?” ele tinha um claro tom de preocupação em sua voz. Quando ele perguntou eu comecei a chorar ainda mais no telefone, eu não sei exatamente o porquê. Um sentimento estranho me invadiu, como se algo estivesse errado. A queimadura em minha pele ardeu ainda mais me fazendo gemer.
“Ai!” eu disse no impulso.
“Elle? O que foi Elle? Por favor me responda” ele pediu preocupado. Eu queria responder. Eu queria falar. Mas não consegui achar forças para falar. Minha voz não saia. Comecei a ficar desesperada. Muda? Muda? Não, eu não estava muda.
“Estou indo pra aí” ele disse e desligou. Ótimo porque era isso que eu realmente queria, que ele viesse para cá. Ele podia entrar pela janela, meus pais nem veriam.
Eu continuei chorando bastante mesmo sem saber o motivo. Eu sabia que não estava chorando pelo sonho. Não, não era por ele. Era por algo que eu não sabia o que era. Algo que me machucava. Só em lembrar daqueles olhos vermelhos eu sentia um aperto esquisito no coração. “Algo está errado” minha mente me dizia. Mais perdida do que eu me sentia impossível estar. Olhei para a queimadura em minha mão, não tinha nem como ter sido feita por algo aqui em meu quarto. Só podia ter sido pelo sonho.
O Dan bateu na janela me fazendo pular de susto. Mas quando eu vi fui tomada por uma sensação de alivio. Tudo ficaria bem, eu sei que sim. Ele estava aqui e nada me aconteceria. Fui até a janela e abri deixando-o entrar.
Logo que ele entrou ele me abraçou e eu senti aquela felicidade que eu sempre sinto quando eu o abraço.
“Ei, ei. Está tudo bem agora. Eu estou aqui. Estou aqui” ele disse tentando me acalmar. Então finalmente eu consegui me acalmar e parar de chorar. Ele esperou pacientemente eu terminar todo o meu choro segurou meu rosto entre suas mãos exibindo um sorriso contagiante.
“O que aconteceu?” ele me perguntou enquanto limpava minhas lágrimas.
“Pesadelo” consegui finalmente responder. Fiquei contente em ouvir minha voz de novo, mesmo que ela soando fraca. Ele nos levou até a cama onde sentamos.
“O que aconteceu no pesadelo?” ele perguntou novamente. Então eu contei tudo exatamente como eu lembrava. “Bem” ele começou e então pausou parecendo escolher as palavras certas. “Não foi nenhum sonho premonitório estou certo disso. Tenha certeza que meus olhos não ficam vermelhos” ele disse tentando soar divertido. Ah que ótimo! Ele deve estar me achando a maior idiota agora.
“Não, não estou. Você não é idiota e sabe disso. Sei que deve ser difícil acreditar que tenha sido somente um pesadelo, mas foi só isso mesmo” ele parecia ter certeza do que ele dizia. Mas por que algo dentro de mim dizia que não?
“Veja” eu disse mostrando o meu braço que tinha a queimadura.
“C-como?” ele não terminou deixando as palavras no ar. Um brilho de entendimento passou pelos olhos dele. Agora ele parecia preocupado. Bastante preocupado. Ao invés de dizer algo como eu esperava que ele fizesse, ele simplesmente começou a chorar. Um choro silencioso daqueles em que somente lágrimas descem e nada mais. Ele inclinou sua cabeça em direção a minha queimadura e deixou suas lagrimas caírem em cima dela. Para minha surpresa a queimadura parou de arder na hora em que as lágrimas dele tocaram meu braço.
Quando ele levantou a cabeça de novo não tinha nada no lugar. Nem uma cicatriz sequer!
“Dan... Como?”
“Melhor assim?” ele disse sorrindo.
“Sim. Muito melhor. Você tem poder de cura por suas lágrimas?” perguntei curiosa e extasiada.
“Parece que sim” ele disse dando de ombros. Modesto como sempre.
“Uau Dan! Isso é demais!” falei empolgada.
“Talvez...”
“Como talvez? Não funciona para qualquer coisa?”
“Sim. Posso curar qualquer coisa”
“Uau. Quer dizer que pode ressuscitar pessoas?”
“Não Elle. Eu disse que posso curar. A morte não é como uma doença ou uma ferida. É apenas o inicio de um novo começo” ele disse sorrindo.
“Huh. Mas mesmo assim Dan! Você poderia salvar milhares de pessoas! Isso é demais!”
“Não Elle. Certas coisas mesmo podendo ser mudadas não devem ser mudadas”
“Está dizendo que me deixaria morrer se assim eu tivesse mesmo podendo me salvar?” perguntei rebatendo. Eu estava completamente chateada com ele. Como ele poderia ter um poder tão grande e tão bom e não querer compartilhar com todos? Isso não parecia muito certo de se fazer, ainda mais levando em conta o que ele é.
“Não tem que se preocupar com isso. Isso não irá acontecer. Com você é justamente o contrario, eu tenho que te manter viva o máximo que eu puder e isso não é pouco” ele disse sorrindo.
“Hum...” mesmo assim eu ainda não gostava da idéia dele não compartilhar algo tão precioso.
“Não? Então encare desta forma. Você iria chorar todo dia se assim pudesse salvar a todos? Gostaria de chorar todos os dias?”
“Não” eu respondi. Era algo a se pensar.
“Sim, é algo a se pensar. Mas não é por isso que eu não faço o que me sugeriu. Meus motivos são outros. Acho que não irá entender, mas essa minha colocação é algo que você entenderia, então encare assim”.
“Hum...” respondi meio contrariada.
“Está tarde. Acho melhor você ir dormir. Tem que acordar cedo amanhã. Amanhã a gente se ver minha menina” ele disse se levantando.
“Espera!” eu disse rápido. Ele se virou para mim esperando eu falar. “Não vai assim” eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele parecia surpreso, mas retribuiu logo. Não queria que ficássemos mal. Isso nunca.
Ele me pegou no colo e me levou até minha cama. Me colocou tão delicadamente que parecia que eu era de vidro. Isso era o que eu mais amava no Dan. A forma como ele me tratava. Incrivelmente carinhoso e sempre preocupado com meu bem-estar. Ele puxou o lençol, me enrolou e me deu um beijo na testa.
“Boa noite Dan. Desculpe pelo susto e obrigada por tudo” eu disse feliz.
“Não há de quê. Boa noite minha menina. Tenha bons sonhos” ele roçou sua mão em minha bochecha e foi embora.
Depois eu sonhei que era um lindo pássaro e voava pelos céus.
“Ellen!” uma voz conhecida me chamou. Era o Dan.
“Oi Dan! O que faz aqui?”. Quando ele havia chegado que eu não vi? O Dan estava do meu lado. Ele estava usando a roupa do dia em que nos conhecemos. Ele estendeu a mão para mim. Não sei o porquê mais o meu sexto sentido estava me avisando que eu deveria fugir, correr o mais longe que eu pudesse dele, que não era seguro.
Sensação bastante estranha já que quando estou com o Dan é quando estou mais segura. Como demorei de pegar na sua mão, ele mesmo veio até mim e a pegou colocando em cima do seu coração e olhou para mim.
Quando olhei em seus olhos fui tomada por um choque de surpresa! Os olhos dele não estavam gentis como sempre e muito menos azuis. Seus olhos eram agora de um vermelho intenso cor-de-sangue.
Afastei-me dele para poder olhá-lo melhor. Quando olhei ao meu redor eu não estava mais no meu quarto, estava num lugar desconhecido. Tudo parecia estar em chamas. O fogo tão vermelho, tão quente quanto o olhar dele. Olhei-o de novo e vi que não era mais o Dan. Era um estranho. As chamas estavam tão intensas que eu não conseguia mais enxergar direito. O estranho estava entre as chamas e me olhava, tudo o que eu podia reparar era naqueles olhos vermelhos.
As chamas estavam chegando ao local onde eu estava e a dor de ser queimada me atingiu. O estranho que estava parado e imóvel até então, sorriu em deleite pela minha agonia. Desespero me atingiu. Não! Eu não poderia morrer. A dor foi se intensificando e comecei a chorar de desespero. Não posso morrer, não posso morrer. Não!
Levantei assustada e percebi que só tinha sido um sonho. Eu estava bem e segura em minha casa. Mas para o meu desespero eu vi que lágrimas estavam encharcando meus olhos embaçando minha visão. Senti uma pontada em minha mão e vi que tinha uma queimadura nela! Tudo tinha sido real então? Não podia ser. Mas as marcas em minha mão apontavam que o sonho teria sido real. Fiquei muito assustada. Fiz a primeira coisa que veio na minha cabeça. Ligar para o Dan! Eu sei que era bastante tarde, mas ele não necessita dormir e me disse que eu poderia ligar para ele a qualquer hora.
“Alô?” ele falou do outro lado da linha. Não parecia que eu o havia acordado.
“Oi Dan! É a Ellen!” respondi ainda chorando e fungando um pouco.
“Oi minha menina. Algum problema? Você está chorando?” ele tinha um claro tom de preocupação em sua voz. Quando ele perguntou eu comecei a chorar ainda mais no telefone, eu não sei exatamente o porquê. Um sentimento estranho me invadiu, como se algo estivesse errado. A queimadura em minha pele ardeu ainda mais me fazendo gemer.
“Ai!” eu disse no impulso.
“Elle? O que foi Elle? Por favor me responda” ele pediu preocupado. Eu queria responder. Eu queria falar. Mas não consegui achar forças para falar. Minha voz não saia. Comecei a ficar desesperada. Muda? Muda? Não, eu não estava muda.
“Estou indo pra aí” ele disse e desligou. Ótimo porque era isso que eu realmente queria, que ele viesse para cá. Ele podia entrar pela janela, meus pais nem veriam.
Eu continuei chorando bastante mesmo sem saber o motivo. Eu sabia que não estava chorando pelo sonho. Não, não era por ele. Era por algo que eu não sabia o que era. Algo que me machucava. Só em lembrar daqueles olhos vermelhos eu sentia um aperto esquisito no coração. “Algo está errado” minha mente me dizia. Mais perdida do que eu me sentia impossível estar. Olhei para a queimadura em minha mão, não tinha nem como ter sido feita por algo aqui em meu quarto. Só podia ter sido pelo sonho.
O Dan bateu na janela me fazendo pular de susto. Mas quando eu vi fui tomada por uma sensação de alivio. Tudo ficaria bem, eu sei que sim. Ele estava aqui e nada me aconteceria. Fui até a janela e abri deixando-o entrar.
Logo que ele entrou ele me abraçou e eu senti aquela felicidade que eu sempre sinto quando eu o abraço.
“Ei, ei. Está tudo bem agora. Eu estou aqui. Estou aqui” ele disse tentando me acalmar. Então finalmente eu consegui me acalmar e parar de chorar. Ele esperou pacientemente eu terminar todo o meu choro segurou meu rosto entre suas mãos exibindo um sorriso contagiante.
“O que aconteceu?” ele me perguntou enquanto limpava minhas lágrimas.
“Pesadelo” consegui finalmente responder. Fiquei contente em ouvir minha voz de novo, mesmo que ela soando fraca. Ele nos levou até a cama onde sentamos.
“O que aconteceu no pesadelo?” ele perguntou novamente. Então eu contei tudo exatamente como eu lembrava. “Bem” ele começou e então pausou parecendo escolher as palavras certas. “Não foi nenhum sonho premonitório estou certo disso. Tenha certeza que meus olhos não ficam vermelhos” ele disse tentando soar divertido. Ah que ótimo! Ele deve estar me achando a maior idiota agora.
“Não, não estou. Você não é idiota e sabe disso. Sei que deve ser difícil acreditar que tenha sido somente um pesadelo, mas foi só isso mesmo” ele parecia ter certeza do que ele dizia. Mas por que algo dentro de mim dizia que não?
“Veja” eu disse mostrando o meu braço que tinha a queimadura.
“C-como?” ele não terminou deixando as palavras no ar. Um brilho de entendimento passou pelos olhos dele. Agora ele parecia preocupado. Bastante preocupado. Ao invés de dizer algo como eu esperava que ele fizesse, ele simplesmente começou a chorar. Um choro silencioso daqueles em que somente lágrimas descem e nada mais. Ele inclinou sua cabeça em direção a minha queimadura e deixou suas lagrimas caírem em cima dela. Para minha surpresa a queimadura parou de arder na hora em que as lágrimas dele tocaram meu braço.
Quando ele levantou a cabeça de novo não tinha nada no lugar. Nem uma cicatriz sequer!
“Dan... Como?”
“Melhor assim?” ele disse sorrindo.
“Sim. Muito melhor. Você tem poder de cura por suas lágrimas?” perguntei curiosa e extasiada.
“Parece que sim” ele disse dando de ombros. Modesto como sempre.
“Uau Dan! Isso é demais!” falei empolgada.
“Talvez...”
“Como talvez? Não funciona para qualquer coisa?”
“Sim. Posso curar qualquer coisa”
“Uau. Quer dizer que pode ressuscitar pessoas?”
“Não Elle. Eu disse que posso curar. A morte não é como uma doença ou uma ferida. É apenas o inicio de um novo começo” ele disse sorrindo.
“Huh. Mas mesmo assim Dan! Você poderia salvar milhares de pessoas! Isso é demais!”
“Não Elle. Certas coisas mesmo podendo ser mudadas não devem ser mudadas”
“Está dizendo que me deixaria morrer se assim eu tivesse mesmo podendo me salvar?” perguntei rebatendo. Eu estava completamente chateada com ele. Como ele poderia ter um poder tão grande e tão bom e não querer compartilhar com todos? Isso não parecia muito certo de se fazer, ainda mais levando em conta o que ele é.
“Não tem que se preocupar com isso. Isso não irá acontecer. Com você é justamente o contrario, eu tenho que te manter viva o máximo que eu puder e isso não é pouco” ele disse sorrindo.
“Hum...” mesmo assim eu ainda não gostava da idéia dele não compartilhar algo tão precioso.
“Não? Então encare desta forma. Você iria chorar todo dia se assim pudesse salvar a todos? Gostaria de chorar todos os dias?”
“Não” eu respondi. Era algo a se pensar.
“Sim, é algo a se pensar. Mas não é por isso que eu não faço o que me sugeriu. Meus motivos são outros. Acho que não irá entender, mas essa minha colocação é algo que você entenderia, então encare assim”.
“Hum...” respondi meio contrariada.
“Está tarde. Acho melhor você ir dormir. Tem que acordar cedo amanhã. Amanhã a gente se ver minha menina” ele disse se levantando.
“Espera!” eu disse rápido. Ele se virou para mim esperando eu falar. “Não vai assim” eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele parecia surpreso, mas retribuiu logo. Não queria que ficássemos mal. Isso nunca.
Ele me pegou no colo e me levou até minha cama. Me colocou tão delicadamente que parecia que eu era de vidro. Isso era o que eu mais amava no Dan. A forma como ele me tratava. Incrivelmente carinhoso e sempre preocupado com meu bem-estar. Ele puxou o lençol, me enrolou e me deu um beijo na testa.
“Boa noite Dan. Desculpe pelo susto e obrigada por tudo” eu disse feliz.
“Não há de quê. Boa noite minha menina. Tenha bons sonhos” ele roçou sua mão em minha bochecha e foi embora.
Depois eu sonhei que era um lindo pássaro e voava pelos céus.
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